
Não há como fugir da saudade da mãe, assim como não há como fugir da chuva. É estranho pensar que a saudade é a própria chuva.
Assim como a água do rio evapora para cair tempo depois, a vivência sobe com a despedida, como se desaparecesse, e volta muito mais intensa.
Um legado de emoções e evocações ensopa seus olhos de inopino.
O cheiro, o abraço, o carinho, os conselhos, tão antigos, reúnem-se novamente. Desenvolvem nuvens e desaguam numa descarga de relâmpagos, iluminando os morros mais secretos e recônditos de sua sensibilidade.
Você não tem como julgar o luto, você só pode vivê-lo. Perde a noção cronológica e os critérios. Não consegue abdicar de recordação alguma nem escolher qual delas mais lhe apetece.
Você se acostuma, aos poucos, com a chuva. É como se retornasse ao ventre. Ao líquido amniótico do ventre. É como se você fosse o ventre da sua mãe. É ela que está sendo gestada por você, numa inversão do ciclo da existência. Você alimenta a mãe com a sua memória. Com a sua esperança. Com os registros do seu dia a dia. Com as suas histórias. Com as suas façanhas. Com os seus fracassos.
Jamais para de conversar. O invisível não mais o constrange.
Você chora e ri simultaneamente ao mentalizar aquilo que ela diria no momento. O que ela fala dentro de você, só você escuta. É uma loucura que chamamos de amor.
O amor de um filho por uma mãe é sábio.
Com o falecimento da mãe, nós alcançamos uma outra compreensão do mundo. Tudo é à flor da pele. E finalmente entendemos que a saudade não é planejada. Você não a controla: “vou sentir saudade agora”.
A saudade vem de onde menos você espera.
De uma lembrança banal, de uma voz, de um aroma, de um encontro aleatório, de detalhes insignificantes de um ambiente.
Você nunca está preparado para a saudade. É tão surpreendente quanto a chuva.
Não contará com capa ou com guarda-chuva, nenhuma proteção, nenhuma prevenção.
Você nunca sabe quando vai chover. Você sabe que vai chover. Você sabe que chegará a saudade, mas desconhece a hora precisa. E você tampouco sabe se a chuva será forte, se vai doer de saudade ou se ela passará rapidamente e abrirá o sol.
Você não sabe. Não sabe se a chuva não começará mansa, insinuando que serenará logo, e apenas aumentará e se tornará mais feroz. Você já está no meio do caminho, no meio do nada, absolutamente molhado, encharcado de reminiscências.
Não há como parar uma lembrança. É inútil qualquer comando racional: “vou parar de sentir o amor de minha mãe”. Do mesmo modo que você não é capaz de parar a chuva. O amor se engrandece com o que você nem cogitava recordar. O que corre do céu, a Terra não suspende.
Primeiro você lembra o que gostaria de ter feito junto, o que faltou fazer, e, mais adiante, reprisa o que vocês realizaram lado a lado. Surge uma sensação esquisita – um tanto gratidão, um tanto vergonha – de ter sido amado por alguém como nunca, de ter se amado a partir de alguém como nunca.
No deflagrar da tempestade, você se vê incompleto, insuficiente, enlameado, até incompetente, de aparência suja e pobre. Mas, em seguida, no ápice da torrente, você descobre o quanto foi perfeita a imperfeição, o quanto foi rica a presença: era para ser exatamente desse jeito, nenhuma vírgula a mudar, nenhuma rota que careceu trilhar.
A saudade da mãe é a mãe de todas as saudades.





