
Não me assusto com as temperaturas baixas, de 5 graus, durante a semana. Já fui urso polar.
O inverno de antigamente durava o dobro e exigia preparo mental.
A modernidade do ar-condicionado, das camisas e calças térmicas, facilitou a resistência.
Nos anos 70, a gente não combatia o frio, mas aprendia a conviver espartanamente com ele.
Só na adolescência, meus irmãos e eu começamos a comprar sapatos com nosso número. Antes, adquiríamos pares maiores para que acompanhassem nosso crescimento. Forrávamos as pontas com jornal, para completar o espaço e deixar os pés mais quentinhos.
Com a chegada das frentes árticas, descíamos pulôveres e casacões de sacos de lixo do alto do armário. Invertíamos os andares das roupas. Levávamos bermudas, camisetas, calções para as prateleiras de cima.
Estendíamos os agasalhos no sol para espantar o cheiro de guardado.
De madrugada, secávamos meias, cuecas e calcinhas nas grades detrás da geladeira.
Esbraseávamos tijolos para pôr à beira da cama.
Dormíamos de moletom, meia e touca. As cobertas não se faziam suficientes. Às vezes, recorríamos às bolsas de água quente.
Íamos para a escola com o uniforme sobre a ceroula ou pijama. Na sala de aula, sempre havia uma vidraça quebrada.
Cobríamos a televisão à noite com um pano, como se ela também sofresse.
Meu peito gelava com Vick.
Acordávamos com as janelas embaçadas.
A mãe friccionava as nossas mãos e depois as colocava debaixo do seu sovaco.
Soprávamos fumaça pela boca com cigarros imaginários. Todos pareciam dragões ao se dirigir para o trabalho.
Chutávamos a geada, que cristalizava a grama e os arbustos.
Restava-nos de diversão desenhar corações no vidro molhado dos carros.
O banho era um espetáculo à parte. Não havia box, somente uma cortina de renda que grudava no corpo em qualquer esbarrão. Plastificava a nossa nudez. O chuveiro elétrico não se mantinha por muito tempo, caía a luz com frequência e precisávamos gritar para um familiar levantar o interruptor. Usávamos uma caneca com álcool para aquecer o ambiente, numa perigosa calefação improvisada.
Corria um filete álgido no meio da ducha. Vivíamos fugindo do contato dessas gotas impostoras. Um martírio ligar a torneira, um suplício pior ainda desligar a torneira.
Não existia nada mais morto do que a tampa da privada. O vaso não nos convidava a permanecer.
O nariz vermelho não tinha conserto. O minuano barbeava até as mulheres.
O que mais escutávamos quando alguém entrava em casa: “fecha logo a porta”.
As chaminés soltavam perfume de lenha pelo bairro. Davam a sensação de que estávamos em uma mata.
A cerração brincava de esconde-esconde com a cidade.
A leiteira e a chaleira disputavam quem chiava mais no fogão.
Os cachorros sumiam nos vãos da mesa.
A sopa esfriava na colher. Cozinhávamos pinhões como sobremesa.
O telhado de zinco ameaçava voar. As frestas assoviavam.
O povo se amontoava no sofá. Ninguém queria ficar longe um do outro. Nem se tratava de amor, mas de sobrevivência.




