
Sempre fui fã de álbum de figurinha da Copa. Parei de colecionar a partir de 2022. Com meus irmãos, completei os de 82, 86 e 90. Continuei em carreira solo para os de 94 e 98. Com os filhos, preenchi todas as seleções das edições de 2002, 2006, 2010 e 2014.
Você esquece a fortuna que gasta, pensando no poder agregador e cúmplice que o ato de colecionar é capaz de despertar entre pais e filhos, ou entre colegas de escola.
É uma amizade feita de pacotinhos com conteúdo misterioso, que não pode ser decifrado antes da hora, ainda que se coloque o papel em direção a uma lâmpada. Abrir um por um para ver quais jogadores surgirão corresponde ao ápice da euforia: serão figuras repetidas ou novas?
Comemora-se ao encontrar um atleta raro, ou da sua preferência, ou aquele cromo que coroará o término de uma página. Os números das mais de 100 folhas saltam da sua memória: “tenho ou não tenho?”. Você decora a ordem dos escudos, das bandeiras, das cores, dos craques. Antes de conferir, sabe se é inédito ou antigo. Alterna as bancas de revista para não cair na mesma safra. Chega a frequentar pontos de venda em bairros distantes para aumentar a chance de carinhas novas.
O hobby traz à tona raízes subjetivas e difíceis de precificar.
Não há como não se sensibilizar com o êxtase infantil dos rebentos indo e voltando com aquelas folhas pesadas de adesivos, colados perfeitamente dentro dos quadradinhos. Ficam hipnotizados com a revisão dos seus avanços.
Existe um sentimento de capricho, de posse do tempo, de que é possível completar alguma coisa na vida.
Crianças são inspiradas a não desistir de procurar, a finalizar uma tarefa. Aprendem a negociar e trocar o seu bolinho de repetidas.
Com várias experiências pela metade durante a existência, isso não deixa de representar um alívio, uma pequena glória.
Um álbum completo gera uma sensação de fim de ciclo. Você o exibe para si próprio mais do que para os outros. Você se sente apto a atingir um objetivo. Forma uma bagagem que carrega para além da competição homenageada. Tanto faz se o seu país levou ou não a taça, o que conta é que você seguiu até o desfecho da sua missão, independentemente das adversidades ou dos meses que dedicou à efêmera adoração, com data marcada.
Meu filho, já adolescente no ensino médio, decepcionou-se comigo na véspera da Copa de 2018, na Rússia. Eu decidi atalhar o processo e comprei de cambistas quarenta selecionáveis que faltavam para o nosso álbum. Queria me antecipar ao início dos jogos.
Apesar da bagatela dos meus lances com os fornecedores adultos na praça, achei que estaria economizando ao dispensar a aquisição lenta e diária dos pacotes. E também me dei um desconto pela quantidade irrisória que pegaria no mercado paralelo: somente 40 postiços diante dos 900 obtidos no suor e na raça.
Vicente não me perdoou. Acabei com a mágica da caça e da expedição. Na verdade, abusei das minhas condições financeiras.
Ele apenas me dizia:
— Não é legal. Passou a perna. Trapaceou. Foi desleal.
Eu me aposentei com enorme descrédito. Só percebi tarde demais: o mais importante não era completar o álbum, mas a nossa parceria. Desculpe, meu filho.






