
Eu não entendia por que meu pai acordava às 6h no domingo.
Nem o sol tinha saído, e ele já estava mateando na cozinha.
Economizando na existência, permanecia sentado na cadeira, sem fazer barulho, dedicado a revisar seus pensamentos. Conspirava com a casa. Sugava o mate baixo, a chaleira sussurrava, o rádio cochichava notícias para mais ninguém além dele.
A residência sugere que é maior com os quartos fechados. Os corredores se alongam, os móveis se tornam mais solenes, livres do uso.
Qualquer ruído ganha suspense: a colher na xícara, a faca na manteiga, a geladeira sendo aberta.
Não passava ainda carro, não passava ainda gente, não passava ainda a pressa. A cidade ainda se encontrava em rascunho, com as esperanças nascendo.
Ele poderia aproveitar o fim de semana para dormir, repor a estafa do serviço, mas inventava de madrugar. Não desfrutava a recompensa da folga.
Parecia um sonâmbulo, de meias e chinelos. Com o roupão desgrenhado, sem o cinto, lembrava um judoca aposentado.
Eu sentia pena. Tadinho. Um penetra na festa do ócio.
Vivia no tempo dos galos e dos cachorros. Morava no amanhecer.
Hoje eu compreendo perfeitamente meu amado “velho”: é o relógio biológico.
Relógio biológico não precisa de alarme.
Sofro da mesma maldição. Os ponteiros já estão em minhas pálpebras.
De tanto acordar cedo para trabalhar, meu corpo se adaptou. Não há mais jeito de me estender nos momentos em que tenho chance.
Sigo o arquivo da memória, os comandos da pele. Minha alma não abre exceções, não admite mais distrações.
Não esqueço a rotina, inclusive quando a vida passeia.
Não adianta rolar na cama, afundar o rosto no travesseiro, apelar para a meditação: eu fracasso.
Apesar dos feriados, repito o hábito paterno.
Herdamos manias, não apenas traços físicos. Não recebi os olhos claros do meu pai – recebi a claridade do seu domingo.
Melhor despertar em silêncio do que ficar me mexendo de um lado para o outro e acordar a família com a minha insônia.
Quando adolescente, eu capotava até o almoço. Nunca mais experimentei igual relaxamento, idêntico mergulho oceânico nas cobertas.
Depois dos filhos, depois dos serões, depois de décadas numa atividade profissional, você é convocado pela luz.
Agora me ponho de pé antes de meus sonhos acabarem.
Vou para a segunda lição da maturidade: aprender a dormir cedo. Pois só é possível recuperar o sono à noite, jamais de manhã.





