
Sou do tempo da Coreia do Beira-Rio. Já entrei quase de graça no estádio. Pagavam-se R$ 3 em seu ocaso. Representava o setor mais popular e tradicional do Gigante, com uma visão na altura do gramado.
Era um fosso sem assentos, que ficava logo abaixo da arquibancada inferior, para o fanático-raiz. Precisávamos permanecer de pé para ver os jogos. Meu último caneco naquele espaço aconteceu em 1992, contra o Fluminense. Casualmente, a última conquista nacional do Colorado.
O lugar foi desativado em 2004 e extinto por completo em 2014, com a reforma do Beira-Rio.
As exigências de uma Copa enterraram de vez o anel mais vibrante da Padre Cacique.
A elitização tem nos afastado do futebol. Virou programa de classe alta.
A nova camisa oficial da Seleção Brasileira para 2026 custa entre R$ 449,99 e R$ 749,99 (versão premium), atingindo de 27% a 46% do salário mínimo.
Nem a classe média alta consegue ir à Copa, exclusiva dos abastados. A segunda leva de ingressos lançada pela FIFA tem cifras de US$ 3.000 (cerca de R$ 14.800) a US$ 10 mil (R$ 49.400). Uma final pode ultrapassar os R$ 50 mil. Quem, em sã consciência, faria tal investimento por uma partida? Só se fossem cócegas em seu orçamento.
A evasão ao exterior não se deu apenas com os nossos jovens talentos, mas com a própria torcida. Gourmetizaram o esporte a ponto de ele ser para poucos, como o golfe.
Não observo mais a mobilização de antigamente para assistir à trupe brasileira, sendo que falta só um mês para o início da competição. Tudo se tornou etéreo, vago, inacessível.
É o fim das charangas, do carnaval fora de época, da euforia ufanista em prol do único país que participou de todas as edições até hoje.
Antes, o Brasil parava, inclusive com plantel desvalorizado. As ruas recebiam um corredor aéreo de fitas verde e amarelo, ampliando a festa junina. Sabíamos de cor os horários dos confrontos e os adversários. Havia gente que tirava férias no trabalho para não perder os bastidores e a maratona de gols.
Minha sensação é que a Copa não deixou de ser importante — certamente será acompanhada de soslaio por grande parte da população. Porém ela deixou de ser onipresente, uma hipnose coletiva, uma febre irrefreável, uma greve de atenção.
Não há campanhas automáticas dos patrocinadores pela expectativa do hexa, mas para reverter o ceticismo.
A desconfiança é geral, com aproximadamente 68% dos brasileiros não apostando no título, de acordo com levantamentos da Quaest. Jamais testemunhamos tamanho descrédito. Os prognósticos são de que não passaremos das quartas de final, superando assim a maior abstinência de taça da nossa história (1970 a 1994).
O anúncio dos convocados na tarde de 18 de maio, em evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, talvez aumente a credulidade. Dependerá das surpresas do técnico Carlo Ancelotti.
Dependerá especialmente se vai chamar Neymar ou não. Por incrível que pareça, mesmo no pior momento da sua carreira, mesmo aos 34 anos, mesmo se envolvendo em tretas, é a nossa estrela, o artilheiro capaz de nos despertar do embotamento, criando um suspense por um milagre, por uma ressurreição inesperada de performance. Ele é o nosso Rocky, o nosso azarão, alguém absolutamente desacreditado como nós.




