
Inter e Grêmio não estão numa boa fase. Encontram-se ombreados, lado a lado, com 17 pontos no Brasileirão, na zona intermediária, lutando contra o quarteto do descenso.
Talvez falte memória. Talvez falte entender a magnitude de cada um. Em algum momento, o futebol gaúcho esqueceu a sua grandeza. Nunca os dois times foram milionários, nunca tiveram facilidades de arbitragem, nunca foram os favoritos quando alcançaram a sua hegemonia no país (Inter nos anos 80 e Grêmio nos anos 90). São feitos de torcidas apaixonadas. Para o tamanho de Porto Alegre, com 1,3 milhão de habitantes, é inacreditável que os clubes tenham quadros de sócios que ultrapassam 100 mil; somados, representam quase um quinto da população. Não existe algo parecido proporcionalmente em nenhum outro lugar do mundo.
Futebol é gol. Inter e Grêmio exibem tentos lendários, caracterizados por um apelido, de rápida identificação popular.
Da parte colorada, o gol da tabelinha de cabeça entre Falcão e Escurinho, nos minutos derradeiros da semifinal de 1976 contra o Atlético Mineiro; o gol da fumaça, de Giuliano, também no apagar das luzes e no meio da cerração fechada, contra o Estudiantes, em Quilmes, pelas quartas de final da Libertadores de 2010; o gol improvável do reserva Adriano Gabiru, que garantiu o Mundial contra o imbatível Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, em 2006; o gol iluminado de Figueroa, sobre o Cruzeiro, na final do Brasileiro de 1975, em que um feixe de sol clareou a testa do zagueiro; o gol de falta venenosa de Valdomiro, no Gre-Nal de 1974, que selou o hexacampeonato regional; o gol de bicicleta de Fernandão, em confronto com o Coritiba, em 2004; o gol de placa de Nilmar, no Pacaembu, em 2009, driblando metade do plantel do Corinthians; o par de gols do guri de Erechim, Rafael Sóbis, no Morumbi, na final da Libertadores contra o São Paulo, quando o narrador Pedro Ernesto Denardin entrou em êxtase – “o Inter rasga a camisa do São Paulo e pisa em cima dela”; o gol de arrancada de Leandro Damião no bicampeonato da Libertadores de 2010.
Da parte gremista, o gol com direito a cambalhota de André Catimba na final do Gauchão de 1977, encerrando a supremacia do rival; o gol de Deus, de Baltazar, de fora da área, onde a coruja dorme, para a passividade de Waldir Peres, no primeiro título nacional, em 1981; o gol da Batalha dos Aflitos, pelo meia Anderson, aos 60 minutos do segundo tempo, num contra-ataque logo após o goleiro Galatto defender um pênalti, em atuação do Grêmio com apenas sete em campo; o gol sem ângulo de Renato no Mundial contra o Hamburgo, em 1983; o gol de cobertura de Luan, na final da Libertadores de 2017 contra o Lanús, consolidando o tricampeonato; o gol espetacular de Pedro Rocha, na final da Copa do Brasil de 2016, no Mineirão, deixando três jogadores do Galo para trás antes de deslocar Victor; o gol de sobra de Cuca na decisão da Copa do Brasil de 1989, contra o Sport, no Olímpico; o gol-bomba de Jael, no Gre-Nal de 2018, em cobrança de 30 metros; o gol de peixinho de César, na final da Libertadores de 1983 contra o Peñarol, depois do chutão na área de Renato Portaluppi; o hat-trick de Jardel na goleada de 5 a 0 sobre o Palmeiras, nas quartas de final da Libertadores de 1995.
Quem sabe a nostalgia seja capaz de despertar a vontade de vencer, o sentimento de garra e superação que perdemos nos últimos anos? Quem sabe a saudade nos ponha de volta nos trilhos da virada?
Sempre fomos Davi, não Golias. Nada mudou em nossas biografias de zebras vitoriosas: por uma pedra, por um gol.



