
Sou devoto das correspondências. Ainda mantenho o hábito das cartas e sei o quanto o vácuo de uma resposta abala qualquer um.
Não há dia em que eu não tenha um envelope ou uma caixinha para buscar na recepção. Entro no elevador usando o queixo como apoio.
Assim amplio, de modo remoto, a minha biblioteca, o meu guarda-roupa, o meu arsenal de panelas.
Pedi para Beatriz o favor de abrir o que chega quando estou viajando, porém ela se sente mal invadindo a minha privacidade.
— Pode ser algo urgente! — digo para ela.
— Mas é importante só para você — ela contesta.
Deixo para lá. Amor não é mudar o outro.
No comecinho de maio, percebi que dois livros que eu havia adquirido estavam demorando: Por que são tão lindos os cavalos? — romance da argentina Julieta Correa — e Cenas da Vida na Província: Infância, Juventude, Verão — biografia do escritor sul-africano e Nobel de Literatura J. M. Coetzee.
Fui conferir no meu aplicativo da Amazon. Ué. O par aparecia como já entregue desde 29 de abril. Transcorrera mais de uma semana.
Não me lembrava de tê-lo em mãos. Por prevenção, vasculhei a pilha de obras no escritório. Mentalizei as cores das capas, nem sinal dos títulos.
Liguei para o porteiro. Tampouco constava algum registro. Todas as entradas são anotadas numa planilha.
Contatei a empresa.
O atendente me garantiu que os itens foram recebidos pela portaria, e me mostrou uma foto da operação.
Mas a imagem enviada não condizia com a minha fachada, embora eu reconhecesse a cena urbana: era a de um prédio vizinho na minha rua.
Pela pressa, o entregador se equivocou. Confundiu o 55 final com 75.
Antes de solicitar o estorno para a loja, de boa vontade, segui para esclarecer o engano pessoalmente e reaver os meus volumes. Afinal, representavam 200 reais investidos.
O zelador do edifício ao lado explicou que não havia nenhuma remessa no armário dos moradores, e que não conseguiria identificar quem tinha retirado.
Ou seja, alguém pegou um pacote grande com o meu nome e com o meu endereço e não viu nada de errado, não se pôs a procurar o verdadeiro destinatário. Simplesmente não devolveu. Já imagino, pelo contrário, que espiou por dentro, encantou-se com o extravio e decidiu ficar com o conteúdo. Não duvido que esteja contando vantagem para a família, como se tivesse sido presenteado pelo acaso.
Não dá para culpar a preguiça. Muito menos a indiferença.
Não se aceita um embrulho impunemente, fazendo de conta que é seu, enquanto o dono experimenta uma eterna expectativa.
Mesmo que se trate de um furto de livros, um patamar acima no nível de subtração de bens, não é uma atitude correta e aguardada.
Por isso o Brasil não funciona: existe gente que não respeita o que é dos demais. Apropria-se de pertences alheios sem crise de consciência, sem alarde, só porque ninguém testemunhou.
Preciso concordar com a minha esposa. Como sempre, ela está com a razão.


