
Qual seria o seu nome se fosse do outro gênero?
Se eu fosse mulher, seria Clara. Se minha esposa fosse homem, seria Ricardo.
É curioso e surpreendente retornar às nossas origens, ao nosso big bang particular.
Todo mundo recebe, no decorrer da sua gestação, um nome que não vingou.
Principalmente na minha época jurássica, em que não havia o hábito e a tecnologia acessível da ecografia, muito menos chá revelação. Descobria-se o sexo no parto, na hora H. Era esta a primeira informação dada pelo médico para os pais, assim que o rebento soltava o seu grito fundador:
“É menino”.
“É menina.”
Existia a crendice geral de decifrar o futuro pelo formato. Quando a gestante tinha uma barriga mais pontuda, projetada para frente e empinada, indicava-se um menino. Quando se apresentava mais arredondada, espalhada para os lados e baixa, o palpite se concentrava numa menina.
Hoje o suspense não dura tanto, não se prolonga até o último dia, porque são recomendadas de três a cinco ecografias de rotina. A fantasia do batismo e o rol de opções se dissolvem a partir da 8ª semana de gestação, pelo exame de sangue, ou na 12ª semana, pela ultrassonografia.
Mas, de qualquer maneira, ainda são de dois a três meses vivendo a expectativa da nominação, desconhecendo o aspecto físico de seu rebento.
Os pais se perdem em probabilidades e discussões acaloradas a respeito dos favoritos nos repertórios masculino e feminino. É uma imersão de imensa dedicação. Não é pouca retórica.
Estudam a sonoridade, pronunciando o nome completo (nome + sobrenomes) em voz alta e em diferentes entonações. Pensam nos apelidos, antecipando as formas como a criança pode ser nomeada nos grupos de convivência. Avaliam o lugar na lista de presença e a popularidade, evitando modas e tendências, supondo constrangimentos em dividir a sala de aula com inúmeros xarás. Também levam em conta a extravagância, que frequentemente acarreta uma permanente soletração. Além de pesquisar o significado, determinando a etimologia e a raiz histórica.
O casal experimenta uma espécie de interrogação poética entre nomes tímidos ou expansivos, entre os que entram pedindo licença e os que abrem a porta sem bater.
O bebê nem nasceu e já possui duas possibilidades de destino em casa, duas profecias em potencial. Uma delas será descartada e talvez nunca seja mencionada ao seu portador. Só uma irá vencer o edital biológico.
É emocionante refletir sobre isso. Durante alguns meses, somos dupla identidade. Um mistério embalado por roupinhas neutras em tons de amarelo e verde, anseios contidos, enxoval impessoal e cor ambígua de quarto.
Mães conversam com seu ventre considerando ambas as hipóteses ao mesmo tempo.
Antes da certidão, somos sobretudo a imaginação de nossos genitores.
Aquele amor informe e monumental acabará se decidindo por um rosto ao final, acostumando-se a chamar a pessoa de um único jeito. Mas não deixo de me comover com essa dimensão que ficou sem acontecer, com essa existência paralela, com esse quase que jamais virou assinatura e herança de vogais e consoantes.


