
Tudo era firmado na confiança, na palavra.
As compras não tinham segunda via. Não se usava cartão de crédito.
O único comprovante se baseava numa encadernação escolar que ficava no armazém com o sobrenome da família: o caderninho do fiado.
Anotava-se a saída de cada item com o respectivo valor ao lado. No fim do mês, somava-se a pendência e se quitava a dívida com dinheiro ou cheque.
Nunca sabíamos quanto daria: dentro das expectativas ou com cifras maiores do que o orçamento. A virada mensal causava calafrios nos lares e uma investigação entre as crias para descobrir se haviam adquirido bobagens sem autorização. Ou seja, chicletes, balas e doces como sonho ou bolo inglês.
Os pais perscrutavam linha por linha, tentando recordar as encomendas das semanas anteriores, numa prévia caseira do Imposto de Renda.
Adultos e crianças desfrutavam de licença para frequentar o mercadinho e levar o que fosse preciso para o almoço ou jantar.
Eu mesmo, menino de seis anos, passava no armazém do seu Alencar, na esquina da Lageado com a Guaporé, para buscar pão fresco, queijo e mortadela de café da manhã. Não existia essa de ser muito pequeno. Nem sofríamos do medo de assalto ou sequestro.
O dono do estabelecimento misturava contabilidade e confidências. Conhecia de cor um por um dos seus fregueses.
Enquanto pesavam os tomates na balança, ele perguntava as notas dos filhos na escola.
Seu Alencar mandava saudações a todos, fixava os nossos gostos e predileções.
Às vezes, lembrava-se de algo ao perceber a quebra de um padrão de comportamento:
— Não quer hoje o guisadinho?
A memória cultivava amizades.
Vivíamos um tempo a granel, em que apanhávamos com colher os mantimentos em sacos de estopa: arroz, feijão, batatas, cebolas. Os produtos mais caros – os enlatados – permaneciam nas estantes de trás da venda, inacessíveis para nós, e somente recolhidos do alto por um pegador feito de madeira e gancho de metal.
Avisos de doença e de óbito ou boatos de divórcios e de brigas na vizinhança começavam a ser partilhados no balcão antes dos jornais. Funcionava como uma fonte de notícias logo cedo.
O caderninho do fiado humanizava a economia. Não havia tela, algoritmo ou senha. Prevaleciam a reputação, a honra da convivência, a vergonha de dever e o orgulho de pagar.
O comerciante mantinha uma caneta na orelha, fazia contas de cabeça, molhava o dedo na língua para folhear. Algumas páginas já estavam tão batidas e amareladas que pareciam o papel-jornal das fotonovelas.
Quando ele riscava os débitos, sentíamos o alívio de ter cumprido a sina e a esperança restaurada de que enfim poderíamos gastar novamente.
Não se duvidava de ninguém pela aparência ou pela profissão. Não se comentava em nome sujo no SPC. Não se apresentavam documentos para abrir a conta.
O CPF ainda não substituía o rosto.






