
O que fazia a nossa cabeça nos anos 80:
— areia movediça;
— Triângulo das Bermudas;
— discos voadores;
— almas penadas na estrada que pediam ajuda a motoristas, e estes descobriam depois o acidente fatal;
— mansão abandonada;
— espírito aparecendo em fotografia revelada;
— maldição de faraós.
O Fantástico sempre trazia uma mininovela com um desses repertórios.
Dois programas importados me envolviam em suspense.
Um deles se chamava Acredite se Quiser, com a narração grave do ator Jack Palance e seu rosto talhado em pedra, piscando para a câmera de modo cínico, deixando a nosso critério confiar ou não nos acontecimentos extraordinários relatados por ele.
As pílulas de curiosidade eram exibidas na TV Manchete. O Rio Grande do Sul entrou na pauta com a história da taça serrada ao meio, em Rio Grande, em 1940.
O São Paulo ganhou o campeonato citadino, com uma vitória e um empate no triangular. Em segundo lugar, ficou o Riograndense e, por último, o Rio Grande. O São Paulo, em solidariedade ao aliado Rio Grande (e num ato de provocação ao rival Riograndense), resolveu, por espontânea vontade, repartir a taça e ceder metade dela.
Também prendia nossa atenção o Além da Imaginação, produzido pela CBS, em que personagens se deparavam com eventos frequentemente perturbadores ou incomuns. Os episódios iam ao ar nas noites de sexta-feira, logo após o Globo Repórter. Até Steven Spielberg dirigiu uma das tramas. A mais marcante foi Um Pouco de Paz e Sossego, na qual uma dona de casa encontra um amuleto capaz de congelar o tempo.
Não existia internet para desmentir imediatamente as lendas. Então sobrava espaço nas conversas de corredor para propagar os boatos do sobrenatural.
Não havia sangue, não havia truculência, não havia chacinas ou serial killers e, mesmo assim, eu morria de medo. Demorava para dormir. Exigia luz acesa.
As séries não entregavam respostas. Insinuavam e metiam pânico só com as dúvidas.
Hoje elas não representariam nem cócegas nos espectadores. Seriam consideradas ingênuas, pueris, de censura livre. Mais para Disney do que para causar sustos e calafrios.
Percebo o quanto fui puro. Toda uma geração se criou no território das sugestões. Corríamos do Velho do Saco, temíamos que a carrocinha levasse nossos cachorros, vivíamos sob a suspeita do invisível.
Eu odiava ir para a praia. Porque os pais diziam que na Lagoa dos Barros, situada às margens da Freeway, entre Santo Antônio da Patrulha e Osório, morava uma noiva assassinada.
Muitos afirmam que a viram. De acordo com testemunhos, o fantasma de roupas alvas sobrevoava as águas de tons escuros e acenava para os incautos. Outros contam que ela pegava carona com os caminhoneiros e sumia do nada, como fumaça.
Quando passávamos por aquele trecho em direção ao Litoral Norte, eu fechava os olhos. Não encarava a paisagem pelas janelas, sequer observava meus irmãos dentro do carro.
Eu apenas perguntava, insistentemente, para o pai no volante:
— Já chegamos? Já chegamos?




