
Existe uma temível urna transparente no aeroporto, quando você passa pelo detector de metais, com todos os objetos proibidos durante o voo que são confiscados pelos agentes de segurança.
Eu observava com curiosidade o que tinha dentro daquele cemitério da modernidade: facas, isqueiros, canivetes, tesouras. Em sua maior parte, pertences pontiagudos que não devem ser transportados na bagagem de mão. Não adianta alegar que é herança dos pais ou dos avós, que se trata de um talismã de alguém falecido. Essas histórias não comovem os guardas de plantão. A hipotética ameaça de violência ofusca os valores sentimentais.
Fiquei perplexo com um passageiro que desejava manter as suas esporas. Iria participar de um rodeio no interior de São Paulo. O correto seria ter despachado. Só que ali, naquele momento, se você retorna ao balcão da companhia aérea, não embarca mais. É um dilema que faz com que qualquer um abandone legados simbólicos. O preço da passagem vence o apego do coração.
Recentemente, contribuí para a urna com um par de carregadores portáteis de celular, porque eu não sabia que a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) havia atualizado as suas regras de segurança em abril e passado a limitar os power banks a bordo no Brasil. Ninguém me avisou antes. São agora dois por pessoa, desde que permaneçam desligados. Eu estava com quatro – vivo viajando longas distâncias e dependo de abastecimentos instantâneos do meu aparelho, onde escrevo todos os meus textos. Nem sempre há tomada por perto.
A contraindicação acompanha uma preocupação crescente do setor com baterias de lítio, suscetíveis a explosões.
Eu me vi obrigado a renunciar, mesmo ciente de que colocava fora cerca de 600 reais de produtos eletrônicos. O voo grita mais forte do que o meu ego. Aliás, nunca perdi um voo. Exibo esse retrospecto invejável de pontualidade, uma medalha moral. Já fui o último a entrar, mas jamais bati com a cara no portão, extenuado e esbaforido. Enfrentei conexões canceladas, que não tiram o meu mérito.
Para conservar a minha fama de cliente ideal, coleciono alguns prejuízos. Ponho na conta da alta milhagem. Entre os itens mais extraviados no quarto do hotel, quando não há mais como recuar ou voltar atrás, destacam-se bonés, garrafinhas térmicas, carregadores, óculos, casacos, chinelos.
Eu me despeço mentalmente deles, torcendo para que tenham mais sorte com os seus novos donos, para que estes sejam mais cuidadosos do que eu.
Ainda que eu me esforce no meu checklist, algo escapa. Não me culpo mais. Nem é problema de memória ou déficit de atenção, é o excesso de translado. Não permito que nada roube a minha saúde.
Levo como lição um poema da autora estadunidense Elizabeth Bishop:
A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.





