
Todo acidente aéreo que envolve queda em área urbana traz um misto de pesar e susto.
Sempre percorre um frio na espinha de qualquer morador: ele poderia estar lá, poderia ser atingido. Ele se transforma num morto em potencial e numa alma salva pelo acaso.
As conversas com a vizinhança assumem falatórios hipotéticos de onde cada um estava e o que fazia no momento fatídico. Compromissos longe dali são comemorados, parecem obra do anjo da guarda. O bombardeio mental não cessa e durará muito tempo, constituindo um trauma coletivo.
Um avião monomotor colidiu com edificações em zona residencial de Capão da Canoa, no Litoral Norte, por volta das 11h de sexta-feira (3). Quatro pessoas morreram.
Entre elas, Déborah Belanda Ortolani, mãe de trigêmeos, e Luis Antonio Ortolani, pai de um filho. O casal liderava a tradicional Feira de Ibitinga. Também estavam presentes o piloto Nelio Maria Batista Pessanha e Renan Saes, sócio da empresa de aviação.
O luto tapou o sol e a praia na véspera da Páscoa.
Um amontoado de querosene, carcaça metálica, lama e entulhos chamava atenção na interseção entre a avenida Valdomiro Cândido dos Reis e a rua Bom Jesus.
Persistem nuvens de incredulidade, como se essas exceções tivessem se tornado comuns. Já somamos 34 vítimas de tragédias aéreas no Rio Grande do Sul na última década.
No final de dezembro de 2024, um avião de pequeno porte tombou em Gramado, na Serra Gaúcha, destruindo pousada, loja de móveis e casas. Dez integrantes de uma mesma família faleceram na hora.
Novamente testemunhamos a rotina de uma grande cidade turística invadida pela fatalidade e pelo medo. As quedas costumam ocorrer logo após a decolagem, não dando chance para nenhum pouso de emergência.
Talvez tenha faltado força na decolagem na pista curta do aeródromo (700 metros), sem que se alcançasse velocidade para subir com segurança. A aeronave, em baixa altitude, bateu na fiação e se chocou contra um imóvel pertencente a um restaurante.
O desastre ocupa a imaginação e generaliza a desgraça num cenário de extrema vulnerabilidade.
O restaurante destroçado era para se encontrar cheio no horário do almoço. Só que seu proprietário, Douglas Roos, reuniu a coragem de parar o serviço durante o feriadão para ajustar o sistema de climatização, embora soubesse que abdicaria de um lucro importante no período, um dos mais movimentados do semestre.
Vá entender os desígnios que o levaram a suspender as atividades para melhorar a infraestrutura. Dentro do cronograma estabelecido no ano, o local deveria funcionar com pelo menos 15 fregueses. Mas, por alguma intuição inexplicável, Roos antecipou a reforma subitamente. Não quis adiar ou deixar para depois.
O dono do comércio chegou a dizer que se tratava de providência divina.
Se não fosse o calor, se não fosse o cuidado para atender à solicitação dos clientes por um maior conforto, se não fosse agora, teria sido uma explosão com dezenas de perdas.
É aquele caso em que a ficha jamais vai cair. Ficamos com o coração entalado na garganta.
São dois mundos paralelos que coexistem. De quem se sente aliviado e protegido por tudo o que não aconteceu, e de quem se vê profundamente enlutado, sofrendo o adeus irreversível de um afeto.





