
Eu já fiz doze pontos na Loteria Esportiva. Faltou um para me tornar milionário na infância, no fim dos anos 70. E lembro que errei o meu único jogo duplo. Um tremendo azar dentro da sorte. Coloquei empate e vitória do Grêmio, e o Náutico venceu com gol nos últimos minutos.
Cheguei perto de ser uma probabilidade em 1.594.323.
Só ganhava dinheiro – a bolada – aquele que acertasse tudo mesmo. Cravar todas as partidas consistia num feito heroico, coisa de virar notícia, parar o bairro, sair no rádio, mudar de vida.
A Loteria Esportiva se destacava como o jogo predileto da época. Nasceu no embalo do tri no México. Formava uma geração de técnicos amadores, que estudavam a tabela, acompanhavam com tensão os comentaristas, com o ouvido colado no radinho de pilha, para decidirem seu palpite no volante.
Movimentava multidões. A média de apostas semanais ficava na casa dos 17 milhões. Não existia Mega-Sena (surgiu em 1996).
Começava na segunda-feira e terminava no domingo à noite, com o desfecho das rodadas dos regionais ou do Campeonato Brasileiro.
No Fantástico aparecia a zebra, que hoje é substituída pela corrida dos cavalinhos.
O jornalista Léo Batista apresentava o quadro, e a Zebrinha entrava para anunciar os vencedores: coluna 1, coluna do meio, coluna 2. Com a voz icônica de Pedro Braga, o bordão “Ih, deu eu… zebra!” chamava atenção para o inesperado. A animação sorria e mexia os olhos.
Os cartões eram furados nas lotéricas. Você precisava guardar o canhoto para conferir os resultados. Houve quem recebesse o galardão de 42 milhões de reais (22 milhões de cruzeiros, no período).
A loteria nunca se recuperou do escândalo da manipulação em 1982, caso conhecido como a Máfia da Loteria. Denunciado pela revista Placar, o esquema envolvia árbitros, jogadores e dirigentes que adulteravam os escores para obter benefícios na Loteria Federal. Novamente, como é comum no Brasil, a impunidade acenou para os 125 acusados.
Em seguida, trocou o nome para Loteca. Tentou o formato de dezesseis pontos, depois retornou para treze; atualmente, é necessário marcar catorze para faturar o prêmio maior. Mas não tem ninguém no meu círculo que aposte nela. É um fantasma que deixou de causar taquicardia.
Transformou-se em peça de museu. Nem a saudade resgatou os seus fiéis.
Com as apostas virtuais imediatas no esporte, corresponde a um anacronismo jurássico.
Foi melhor perder na minha meninice sonhadora do que triunfar na decadência.
No teste 256, de março de 2007, a Loteca pagou o menor prêmio da história: em uma rodada previsível, 7.792 apostadores alcançaram os catorze pontos e levaram um prêmio de 32,67 reais – quem conseguiu treze pontos levou oitenta centavos.
Muita gente nem se dispôs a ir à Caixa Econômica Federal para retirar a esmola.
Até a simpática zebra correu para longe, de volta às savanas.





