
A pressa não muda o destino. Pode até até confirmá-lo.
Eu seguia a fila para o detector de metais do aeroporto de Guarulhos, colocando as minhas malas vagarosamente, com cuidado, na esteira. Lembrei-me, inclusive, de tirar o cinto.
De repente, um senhor acelerado e afoito, por detrás, cutucou-me o ombro:
— Posso passar na sua frente? Eu me vejo terrivelmente atrasado para o voo.
Senti a sua respiração entrecortada, com o fôlego comprometido para falar. Nem questionei: abri passagem. Já estive na situação dele. Dependendo do número do portão, você não embarca mais.
Agradeceu e sorriu.
Não é que ele foi escolhido para a vistoria aleatória?
Economizou dois minutos comigo e sacrificou dez no controle de segurança.
Se ele me permitisse ir primeiro, como estava programado, na ordem natural dos acontecimentos, seria eu o sorteado. Tomou o meu lugar, para o seu azar.
O sujeito tentou se adiantar na clarividência e acabou bloqueado por aquilo que chamamos de acaso.
Buscou em vão alegar que estava em cima do laço, mas com a vigilância não há conversa, não há exceção.
Não sei se ele conseguiu chegar para o voo. O que eu sei é que ele, subitamente, ficou calmo: levantou os braços, posicionou os pés nas pegadas desenhadas no tapete, admitiu que o sensor passeasse pelas suas roupas e pela bagagem. Não demonstrou mais nenhuma resistência. Desistiu de retrucar. Desistiu de lutar contra o tempo.
Quando um homem foge do seu destino, ainda é parte do destino. Quando um homem engana o seu destino, ainda é plano do destino.
Os atalhos costumam ser mais longos do que o caminho tradicional, com mais obstáculos pela estrada. Abreviar é demorar.
Sofremos procurando exercitar a onipotência, com a ilusão de que dominamos os fatos, e determinamos a previsão exata dos compromissos. Insistimos em mandar na duração de uma reunião, de uma festa, de um encontro. Não acolhemos o imponderável.
Juramos que o trânsito será igual ao dia anterior, o fluxo será igual ao dia anterior, e que nós estaremos com a mesma disposição do dia anterior. Não tabelamos com as casualidades. Não improvisamos. Não aceitamos que era para ser assim.
Gosto de uma parábola oriental. Um andarilho localiza o Livro do Destino na frincha de uma caverna. Descobre que estão registradas as vidas de todas as pessoas do universo. E mais: é possível alterá-las. Começa a folhear o livro com descomunal euforia. Em vez de se dedicar a si, detém-se nas páginas dos outros. Julga, compara, inveja. Decide dar lições de moral, corrigir as condutas, propor armadilhas. Diminui alegrias. Acrescenta desgraças. Acredita que a justiça é vingança. Quando finalmente caça a própria seção, já é tarde. Gastou a sua chance bisbilhotando a existência alheia. O livro desaparece.
Se eu lhe contar que, de tão preocupado com aquele passageiro, tão siderado pela sua condição, fui eu que perdi o voo? Sequer tenho o direito de protestar. Não deixou de ser o meu destino.





