
Nas casas antigas, havia sótão ou porão, ou ambos.
Eram locais destinados para tralhas, para objetos que não combinavam com a decoração.
Os filhos dormiam juntos num único quarto apertado, em beliches. Sempre existia aquele que decidia romper o agrupamento e intencionava transformar o território desocupado em dormitório. Queria concretizar o sonho de ter o seu cantinho, o seu armário, a sua privacidade longe da importunação dos irmãos. Quem sabe levar a namorada ou namorado a um cômodo reservado.
Aspirava à emancipação possível dentro do lar da infância.
Para se mostrar apto e merecedor do privilégio, efetuava uma faxina sem precedentes. Com balde e vassoura, convertia o caos em um lugar habitável, a salvo das teias de aranha, dos insetos, do ácaro e da poeira. Executava um trabalho amador de marceneiro e de pedreiro. Eliminava tudo o que não daria para reciclar. Abria espaço. Esfregava o piso. Espantava as camadas encardidas de abandono. Até pintava as paredes.
Daí apresentava aos pais a arrumação milagrosa e ganhava respeito para realizar o pedido: “gostaria de ficar aqui!”.
Se fosse na água-furtada, poderia admirar o horizonte com uma claraboia, e ainda dispor de um acesso ao telhado para mirar as estrelas e desfrutar de momentos de quietude e solidão. Se fosse no porão, sentia-se no subterrâneo da vida cotidiana, na emoção de acompanhar com primazia os movimentos externos – em especial, os sapatos das pessoas – pelas janelinhas laterais.
Meu irmão Rodrigo foi esse desbravador na adolescência. No quintal da residência, fez do anexo da garagem uma suíte, derrubando as divisórias. Ele ostentava que morava nos fundos, não mais morava com a gente. Entrava apenas para almoçar e jantar e aproveitava o melhor dos dois mundos.
Seu capricho calou a boca da nossa inveja. Nem havia como protestar, tamanho o seu sacrifício e a reforma empreendida a partir de sucatas. Ele catava acessórios e equipamentos jogados fora pela vizinhança. Instalou lamparinas, colocou um fogão a lenha, lixou os tijolos para deixá-los à vista.
Rodrigo se tornou promotor de justiça, mas exibia talento para arquiteto e engenheiro.
Não se compreendia como, precocemente, antes dos 15 anos, deu conta do serviço.
Passou meses conduzindo um carrinho de mão, empunhando uma pá, misturando cimento. Não chamou nenhum eletricista. Ninguém o ajudou.
Assumiu a condição de exército de um homem só, transmudando o refugo em refúgio acolhedor.
Seu esconderijo parecia um chalé da Serra. Acabou mais bonito do que qualquer outro ambiente nosso: mais do que o escritório, o quarto de casal, a sala de estar. Adorávamos visitá-lo.
Lembro-me de falar para a mãe:
— Vou no Rodrigo e já volto.
Desprovido de orçamento, inventou a si mesmo, parteiro da própria criatividade, porteiro da sua liberdade.



