
Os barulhos do mundo movimentavam o nosso coração.
Influenciavam o humor, motivavam decisões, interferiam na rotina.
No pulso, reinava o relógio de corda. O tique-taque significava que ele estava andando, que os ponteiros seguiam cumprindo as suas voltas. Quando parava de súbito, colocávamos a pulseira no ouvido. Decretávamos o seu óbito e o ressuscitávamos perguntando a alguém a hora certa e girando o botão lateral.
Os ruídos também mandavam em nossa vida no orelhão, que ia engolindo as fichas minuto a minuto. Você ouvia o estômago do telefone público. Dava uma aflição ver que seus créditos estavam acabando, mas a vontade de conversar não. Acelerávamos a despedida, ou às vezes sequer finalizávamos nossa mensagem com um “tchau”. É herança dessa época meu hábito de não enrolar, de ser direto para dizer o que eu quero, com medo de uma queda abrupta, do tututu do gancho.
Da mesma forma, eu me recordo do taxímetro Capelinha do táxi, que funcionou dos anos 50 até os anos 80. Ficava no painel, perto do para-brisa. Os veículos para esse serviço se alternavam entre Fusca, Corcel, Opala – e depois o Santana –, sempre com uma cordinha na porta para o motorista puxar quando o passageiro desembarcava. Entrávamos e saíamos pela frente, não havia quatro portas. No fusca, o banco dianteiro do carona não existia.
Chamava-se a condução com o dedo estendido na calçada ou com um assobio, nada de esperar por aplicativo.
O apelido “Capelinha” coincidia com o formato: uma caixinha elevada, com topo arredondado, iluminada por dentro, lembrando realmente uma pequena capela.
Era uma caixa registradora: mostrava a bandeira (1 ou 2) e exibia o valor do trajeto em números que iam aumentando. Fazia aquele clique seco, meio hipnótico, a cada quilômetro avançado.
Um detalhe jamais nos escapava: o motorista selecionava a bandeira no começo da corrida – um gesto cerimonial de início da partida, de bola rolando, de cronômetro ligado, indicando que você não poderia mais desistir.
Representava um altar da nossa ansiedade: não desgrudávamos os olhos da maquininha, acompanhando o galope do preço e sofrendo com a ideia de não conseguir pagar e descer antes do destino.
A trilha sonora do Capelinha, com os seus estrépitos salteados, deixava um clima de tensão no ambiente, ocupava espaço, atiçava a nossa imaginação. Nem batíamos papo para não perdê-lo de vista.
Não se tratava só de um aparelho, mas de um espírito baixando na viagem, um personagem no carro – a todo momento, reavivando a cobrança que viria, a dúvida que viraria dívida, a exigência do dinheiro vivo. Diferentemente da nossa atualidade, não se dispunha de Pix ou cartão de crédito; ou você tinha ou não tinha dinheiro na carteira.
Parece uma outra encarnação. Tudo na modernidade é digital, silencioso, invisível. Já não reparamos na passagem do tempo. É mais rápido envelhecer.

