
Eu sempre me dava mal na devolução de livros à biblioteca da escola. Não conferia a ficha ao final de cada volume com a data do retorno.
Simplesmente me esquecia do vencimento. Colocava o livro na cabeceira da cama e já o considerava parte natural da minha vida.
Sete dias pareciam insuficientes para terminar a leitura. Tão insuficientes que eu nunca começava a leitura.
Era o rei das multas. Vivia negociando um desconto. Pelo menos, ajudei a custear a ampliação do acervo. No fim do ensino médio, cheguei ao constrangimento de ver a minha formatura suspensa enquanto eu não devolvesse uma obra. Não tinha noção de onde estava ou para quem a havia emprestado. Ou seja, alcancei a proeza de sublocar uma propriedade literária.
Os alunos de hoje receberão o dobro do prazo para ler: 14 dias. E nem precisam se deslocar a um espaço físico. E tudo é de graça, sem culpa, sem lapsos, sem neurose, no aconchego do celular.
O Ministério da Educação criou o MEC Livros, capaz de fazer subir a média de leitura do brasileiro de 3,96 livros por ano e converter a parcela de 53% da população que não leu sequer uma obra nos últimos três meses.
Tanto a desculpa da falta de tempo quanto a de pouco acesso foram derrubadas num único gesto: uma biblioteca virtual com mais de 8 mil títulos nacionais e internacionais, de domínio público e contemporâneos licenciados.
Qualquer um pode se inscrever pela sua conta no Gov (meclivros.mec.gov.br).
Lá estarão lançamentos de Itamar Vieira Junior, Socorro Acioli e Édouard Louis; nossos clássicos João Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Ariano Suassuna; o Nobel da língua portuguesa José Saramago; gaúchos como Dyonélio Machado e Moacyr Scliar; e autores de best-sellers como Suzanne Collins e J. R. R. Tolkien.
Atende a todos os gostos e estilos, incluindo produções do ano vendidas no mercado por mais de 50 reais, e grandes êxitos como Jogos Vorazes e O Hobbit.
O usuário seleciona seus gêneros favoritos e personaliza as sugestões com base nas preferências. Desfruta do direito de um empréstimo por vez, com visualização feita diretamente no navegador ou via aplicativo. É um download provisório, que facilita a renovação automática.
O sistema, no formato PDF, permite recursos de e-book, tais como ajuste de tamanho de fonte e contraste, e suporte específico para pessoas com dislexia.
Houve 225 mil inscritos na plataforma e 100 mil livros emprestados em uma semana
O aplicativo não substitui as bibliotecas públicas, apenas resolve o seu vácuo digital. Tampouco deve ser tomado como uma ameaça para livrarias ou editoras, pois o difícil é incentivar o hábito e formar leitores; depois, eles se tornam praticantes devotos e contumazes, aumentando o giro da economia e a receita das distribuidoras e dos selos.
Se alguém duvida do sucesso da iniciativa, houve 225 mil inscritos na plataforma e 100 mil livros emprestados em uma semana, ainda sem campanha, de modo orgânico e espontâneo, com a modernidade circulando de um jeito antigo e infalível: o boca a boca.
As estantes agora estão na palma da mão. Transforma-se o veneno em antídoto. Nesse caso, nenhum pai ou mãe vai reclamar do excesso de tela dos filhos.




