
Quando lancei meu primeiro livro de poesia, As Solas do Sol, em 1998, estranhei que a edição acabou em três meses. Tratava-se de uma escrita altamente metafórica, cifrada, de inversões do senso comum. Não entendia como agradara aos leitores logo de cara.
Um poeta finalizando sua tiragem em pouco tempo? Virei notícia, fofoca. Minha editora se assombrava com a proeza e festejava a marca.
Eu me senti um autor de best-seller precoce. Aquilo me encheu de vontade de planejar o segundo livro, de perseverar na carreira. Havia encontrado o meu lugar na linguagem.
Eu me imaginava apreciado por uma multidão. Experimentava um choque: saía da solidão dos meus pensamentos e, de repente, mil pessoas levavam a minha criação para a cabeceira, para a estante. Era uma sensação inestimável de reconhecimento e de superação. Já queria ver alguém me folheando no trem, no ônibus, sublinhando algum trecho, recitando versos, repousando a obra no peito com o meu nome estampado na capa.
Um dia, ao visitar a minha mãe, usei o computador dela para mandar um e-mail urgente. E não é que toquei com os pés em algo pesado debaixo da mesa e constatei caixas e mais caixas com volumes da minha estreia literária? Desandei a contar: passavam de centenas.
Não me lembrava daquela pilha. Desde quando a minha mãe tinha um estoque do meu livro?
Então descobri que, secretamente, ela havia comprado parte da edição. Investiu o seu dinheirinho suado da Assistência Judiciária, trabalhando de manhã e de tarde, assumindo plantões noturnos, para garantir o meu sucesso no começo difícil, para me abrir espaço no mercado.
— Não precisava disso, mãe — comentei.
— Minha alfabetização com você não terminou — ela respondeu, constrangida, como se o seu amor se resumisse a um pecado.
Em seguida, desabafou:
— Só largo a sua mão quando você for capaz de voar sozinho.
Dei um desconto diante de seu olhar incurável de ventre. Não me percebi infantilizado, e sim protegido. Assim como ela vibrava comigo em minhas apresentações de fim de ano ou em minhas partidas de futebol, deixando a passividade de espectadora de lado e vibrando mais do que o supervisor ou o treinador na plateia e nas arquibancadas. Sua voz sempre chegava a mim antes de seu rosto.
Minha mãe me ensinou a ler e a escrever em casa – a escola se recusou a me atender, devido a um diagnóstico de retardo mental. E, não bastasse, continuou me apoiando de modo incansável até eu me tornar conhecido, até ninguém mais duvidar de meu talento.
Ela desejava que eu fosse aceito, que não sofresse nova rejeição.
Acreditou tanto em mim que me convenceu.
Dona Maria foi minha professora e minha maior fã.
Por mais que eu esteja consolidado e emancipado, ainda mantenho a suspeita de que, em meus lançamentos, ela vá a uma livraria para comprar meus livros. Se a enxergar, me denuncie.
A cada publicação, o primeiro exemplar é autografado para ela, por gratidão infindável.
Minha mãe não me fez apenas não desistir. Ela me fez existir.



