
O destino não tem dó. Não tem desconto para as nossas dores. Não tem piedade das nossas esperanças. Não tem clemência com os nossos desejos interrompidos.
Jamais um jornalista acreditará que vai morrer ao voltar de uma reportagem.
Não me sai da cabeça o que deve ter passado pelo coração da repórter Alice Ribeiro, da TV Band Minas, em seus últimos momentos.
Ela se despediu aos 35 anos na quinta-feira (16), após não resistir a uma colisão com um caminhão na BR-381 na quarta-feira (15), próximo ao Posto Fumaça e ao pedágio em Sabará, região Central de Minas Gerais. O cinegrafista Rodrigo Lapa, natural de Porto Alegre (RS), 49 anos, que dirigia o veículo, também faleceu, deixando esposa e uma filha de 6 anos.
Dois pequenos ficam sem pai e sem mãe, no mesmo rasgo de estrada.
Alice não poderá aproveitar o seu filho de nove meses, Pedro, carinhosamente chamado de “astronauta” como alusão à sua valentia ao nascer – ele recorreu a um capacetinho para ajudar na formação do crânio.
Acompanhou a sua criança durante o tempo de duas gestações: no corpo e na alma. E isso representou o universo inteiro de contato: dezoito meses divididos entre o lado de dentro do ventre e o lado de fora. Preparou-se tanto em segredo para a maternidade, acalentou a fantasia de registrar passo a passo, e não houve realidade para toda a sua intensidade. O amor permanece do jeito que foi sonhado, mais do que foi vivido.
Não estará no aniversário de um ano de seu bebê. Não estará para segurá-lo no colo na hora de soprar as velas. Será uma ausência gritante nas fotos. Talvez um porta-retratos na mesa, perto da torta, lembre sua imensa saudade do futuro.
Ela cobria a duplicação da rodovia que diminuiria o risco de acidentes, e acabou fazendo parte das estatísticas.
O que dizer, então, de seu marido, João, que é policial rodoviário federal e descobriu a ocorrência em seu ambiente de trabalho, no meio dos boletins e avisos de engarrafamento pelo desastre? Impossível imaginar o nó no peito quando percebeu que uma das vítimas se tratava de sua Alice. Como retornar ao serviço, reprisando sempre o trauma da perda?
A jovem vinha ganhando visibilidade e cada vez mais espaço na tela com o novo emprego, desde o seu ingresso em agosto de 2024. Já era parada na rua pelos telespectadores.
Diplomada pela PUC Minas em 2015, a belo-horizontina iniciou a carreira como estagiária em emissoras como TV Globo Minas, TV Alterosa e Record TV Minas. Depois da graduação, atuou na TV Leste, afiliada da Record TV em Governador Valadares (MG), além de integrar a equipe da Rede Bahia, em Feira de Santana (BA), ligada à TV Globo.
Doadora de órgãos assumida, seus rins, pâncreas, fígado e córneas seguem para recuperar e salvar existências. Ela se espalhou pela generosidade.
Não consigo entender o adeus precoce de uma pessoa tão boa e carregada de expectativas. Não era para ser. Nem tudo é para ser. A morte erra.





