
Minha mãe, quando era adolescente, veio estudar e trabalhar em Porto Alegre e sempre destinava um dinheirinho, uma pequena parte de seu salário, para os pais em Guaporé, sua cidade. Ela é que dava mesada.
Não que eles pedissem; ela tomava a iniciativa, em espontânea decisão. Encontrava um jeito de diminuir a saudade, de se mostrar presente e ajudar no orçamento.
Nem recebia tanto, mas separava 20% para sua antiga morada no torrão natal. Enviava cartas com a esperança de que a economia fosse usada para alegrias pessoais, no meio da recessão e do sustento.
“Mãezinha, compre um vestido.”
“Paizinho, compre uma manta.”
Os filhos não abandonavam a família. Levavam a família com eles até o fim dos dias.
Nos anos 60 e 70, em um êxodo rural, a prole se espalhava para longe, numa estratégia de sobrevivência, e se reunia na caixa postal com o propósito de amparar seus genitores.
Os lares no período se caracterizavam como numerosos: tinham de meia dúzia a uma dezena de rebentos. Permanecer unidos correspondia a uma quimera impossível, com muitas bocas para alimentar. As circunstâncias ditavam a prática de mandar embora os adolescentes como um bilhete de loteria.
Ninguém fugia de sua obrigação, do sentimento de se tornar útil, do compromisso de participar das finanças com um pouquinho por mês.
Vigorava uma espécie de pacto silencioso: o interior seguia sendo o centro da vida emocional para quem buscava oportunidades na capital. Os migrantes não entendiam o gesto como auxílio ou generosidade no sentido moderno, mas como pertencimento, continuidade, responsabilidade.
Não se viam como alguém que saiu de casa, mas como alguém que carregava a casa consigo. Um agente infiltrado na metrópole. Procuravam cumprir a promessa de regressar mais abastados.
Descontar uma porcentagem do soldo significava dizer:
— Vocês me criaram, agora eu retribuo.
— Já sou adulto, sintam orgulho de mim.
Havia menos egoísmo e mais uma noção de manutenção de grupo. Todos se projetavam como provedores, como peças de um quebra-cabeça para perpetuar um sobrenome.
Não se desperdiçava a passagem de trem ou de ônibus. Existia a necessidade de justificar o investimento com uma contrapartida no futuro.
Imediatamente se compartilhava qualquer conquista. A prosperidade era preservada, inicialmente, na esfera íntima, doméstica, como segredo, antes de ser aplicada para benefício individual. Primeiro, melhorar as condições paternas e maternas; só depois é que se pensava em subir de patamar material e conseguir bens para o próprio proveito.
Demorava-se para adquirir casa ou carro, tamanha a preocupação com a origem.
O hábito se propagava pelo exemplo. O primogênito começava, o caçula repetia.
O que pareceria hoje uma espantosa exceção valia, naquela época, como regra de paridade. Não se podia estar feliz ou mais confortável sozinho. Sofria-se com a ideia de que um dos seus estivesse enfrentando dificuldades e carecendo de socorro.
A voz se mantinha próxima do eco. As montanhas caminhavam.



