
Todo mundo conta com uma experiência de quase morte para relatar. Ou quase se afogou. Ou quase incendiou a casa ao esquecer a boca do gás aberta. Ou quase caiu de um precipício numa trilha. Ou quase bateu o carro. Ou quase levou um choque.
O ex-árbitro de futebol Leonardo Gaciba, por exemplo, ostenta uma coleção de milagres. Detalhes fortuitos o tiraram de três grandes tragédias num intervalo de 23 anos.
Em 1993, após ser agredido com um soco por um massagista em jogo do Gauchão (Guarany de Garibaldi e Aimoré), contusão que exigiu sete pontos no olho, Gaciba perdeu o ônibus em que retornaria a Pelotas e escapou de acidente com nove vítimas.
Em 2007, Gaciba apitaria em um embate entre Flamengo e Paraná. A partida acabou transferida e ele não embarcou no voo da TAM, mesmo com a passagem emitida. O desastre aéreo resultou no óbito de 187 passageiros e tripulantes.
Em 2016, foi convidado para ser comentarista da final da Copa Sul-Americana. Estava previsto que ele voaria com o elenco da Chapecoense, mas não havia mais assentos disponíveis. O avião tombou em Cerro Gordo, na Colômbia, por pane seca (falta de combustível). Setenta e uma vidas se abreviaram, incluindo vinte jornalistas brasileiros.
Tudo o que não aconteceu é proteção. Circulam entre nós mais anjos da guarda trabalhando do que sonhamos.
Somos frágeis, dançando com uma perna no chão e a outra suspensa no abismo, à mercê de inúmeras fatalidades invisíveis.
Continuamos ilesos por uma razão: para ressignificar a nossa existência.
Não era a hora da encomenda, mas de uma mudança.
Recebe-se uma chance para dar um novo rumo à trajetória pessoal.
Há pais injustos com a sua prole que encontram motivação para selar as pazes, há irmãos brigados que retomam os laços, há profissionais infelizes que abandonam os seus medos para realizar os projetos engavetados, há parceiros omissos que começam a se dedicar com afinco à família.
Nunca se sabe qual o desígnio. Mas o susto elimina o fútil e eleva o essencial. Aquele que é poupado do pior assume as suas prioridades. Para de desperdiçar o convívio. Entende que jamais terá tempo para se despedir – e cada dia passa a ser vivido como se fosse o último.
O sobrenatural e o cotidiano se abraçam para transformações positivas.
É um sacolejo sentimental aos teimosos, aos renitentes, aos reclamões, aos pessimistas.
Ocorre o efeito colateral de se sentir grato pela restituição do seu lar. Você aproveita o que já possuía de modo inédito, como uma loteria invertida.
Há quem largue os vícios, cuide da saúde e se deslumbre com as pequenas delícias da normalidade. O que parecia rotineiro e sem valor ganha relevância inadiável.
Rompe-se com o vácuo do destino, com os equívocos da indiferença e do egoísmo, valendo-se de um maior discernimento e urgência para as escolhas futuras.
O quase devolve a plenitude. A proximidade traumática com a finitude exibe o poder irreversível de revolucionar condutas.
Nossa certidão de nascimento deveria ser sempre atualizada, pois nascemos muitas vezes depois.




