
Nos nossos anos remotos, geladeira era uma vovozinha à moda antiga, com a estatura da matriarca – 1,60m no máximo –, uma porta, um trinco, coisa alguma automática por dentro, e a exigência de limpeza mensal.
Seu espaço não ultrapassava o de um porta-malas apertado de um Chevette.
Ela nos atendia até em tarefas extras. Às vezes se transformava em estufa – secávamos meias e roupas íntimas nas suas costas elétricas durante o inverno –, às vezes ocupava o papel de cão de guarda – tínhamos nos acostumado com o seu ronco intermitente. Geladeira silenciosa, na época, estava quebrada.
Era redonda, jamais quadrada, jamais bipartida, jamais com esconderijos.
Seu pequeno congelador terminava entupido de gelo, como uma caverna no Polo Norte. Isso acontecia porque o sistema agia em ciclo direto, produzindo o resfriamento por uma serpentina metálica no compartimento superior. Essa placa atingia temperaturas abaixo de zero. Sempre que abríamos a porta, a umidade invadia a geladeira e, em contato com o frio intenso, imediatamente se condensava, formando camadas sucessivas de neve.
Quem é da década de 1990 para cima talvez não entenda esse apelo. Atualmente as geladeiras têm capacidade de 700 litros, duas portas, frost free, drink express ou gelo fácil.
A estrutura despojada continha prateleiras, um gavetão para verduras e uma gaveta, hoje extinta, que existia exclusivamente para represar as águas do Dia D: Dia de Descongelar a geladeira.
Moradores ansiosos tentavam acelerar o processo com faca ou colher e furavam o evaporador, danificando definitivamente o bem de consumo.
A mãe ficava abalada, nervosa com a missão. Criava um cordão de isolamento e mantinha a filharada longe. Haveria uso de rodo e de todos os panos de chão da área de serviço.
— Vou descongelar a geladeira amanhã.
A sentença trazia 24 horas de suspense, controle dos passos e sequestro da residência.
Vivíamos um apagão comportamental, o equivalente a uma falta repentina de luz ou de água. Sabíamos que se tratava de uma exceção, na qual não seria adequado duvidar das ordens dadas.
Não se podia brincar com o assunto. Descongelar a geladeira significava uma operação séria. Seu conteúdo era esvaziado totalmente.
A guerra sanitária ocorria unicamente com céu azul e ensolarado, para pôr os acessórios no quintal, e assegurava que a geladeira permanecesse longeva e saudável.
A mãe caçava cheiros passados e bandejas vencidas, encravadas nas crostas do gelo, e lutava contra o tempo para garantir poucas baixas das carnes estocadas.
Não era permitido entrar na cozinha nem para buscar um copo d’água. Aqueles que infringissem a regra receberiam castigo. Se bem que todo mundo já estava de castigo, trancado no quarto.
Tirar a geladeira da tomada era inevitável, e começava a corrida para que os mantimentos não estragassem.
A mãe só recuperava o humor quando noticiava para o grupo de noite:
— Deu tudo certo. Não perdemos nada.




