
Uma das grandes decepções da minha adolescência foi o cometa Halley. O desgosto acabou de aniversariar 40 anos.
Mas parece que aconteceu ontem. Ainda me vejo de cabelos compridos, aos 13 anos, com Walkman amarelo, ouvindo David Bowie, e indo de bicicleta para o Colégio Aplicação.
Em meio à redemocratização do país, após o falecimento de Tancredo Neves – que imortalizou o hino Coração de Estudante, de Milton Nascimento – e a posse de José Sarney em seu lugar, pairava um nervosismo gigante em testemunhar o cometa completando uma órbita ao redor do Sol, fato raro, que ocorre em média a cada 76 anos.
Nunca fui ligado à astronomia, só que era fã de história. Sua última aparição havia sido em 1910, com o boato exagerado de que exibiria o tamanho de sessenta luas.
No início do século XX, sua visita causou agitação e espanto, como se fosse o fim do mundo.
Depois, o tremor apocalíptico seguiu por semanas. Seu rabo luminoso de salamandra provocou medo de contaminação (falava-se na presença de gases tóxicos) e desandaram a vender comprimidos contra radiação, guarda-chuvas, máscaras. Tudo em vão – os trambiqueiros prosperaram.
Naquele 9 de fevereiro de 1986, no auge dos anos 80, reuni os amigos da escola no alambrado do aeroporto Salgado Filho. Não enfrentaríamos os obstáculos dos edifícios e espigões. Conseguimos inclusive um telescópio amador, rateando a mesada entre nós.
Participaríamos decisivamente de um evento coletivo marcante, com registros documentados desde, pelo menos, 240 a.C. Quando o cometa se aproxima do Sol (periélio), o calor faz o gelo do seu núcleo sublimar (mudar de sólido para gasoso) e liberar poeira e gases, criando uma atmosfera enorme (coma) e uma cauda majestosa.
Ficamos horas no altar, esperando a noiva estelar – espiando ora o relógio, ora as constelações –, até descobrir que ela já havia passado.
Representou apenas mais um vulto luminoso no alto. Diferentemente da glória do planetário, ansiosamente aguardada e festejada pelo comércio, com promoções de camisetas e bottons, a maioria das pessoas em áreas urbanas flagrou com dificuldade uma mancha difusa e acinzentada, como uma “pequena fumaça”.
A profecia não se cumpriu. Não incendiou os olhos. Não escandalizou. Não deslumbrou ninguém. Tratou-se de um mero fogo de palha. Existiu um abismo entre a expectativa gerada pelo marketing e a realidade visual do fenômeno.
Eu me arrependi de ter acreditado no rasgo de luz e alardeado a sua importância para o meu círculo de afetos.
Alegou-se pouca visibilidade a olho nu pela posição desfavorável, com Terra e cometa em lados opostos do Sol, o que reduziu a sua luminosidade aparente, que esteve em torno da magnitude 2,1.
A próxima vinda do Halley será em 28 de julho de 2061.
Apesar da minha experiência malfadada, os prognósticos já começam a me iludir. Dizem que desta vez não tem erro: o cometa estará do mesmo lado do Sol que a Terra, o que o tornará muito mais cintilante e inesquecível. Estima-se que ele atingirá uma magnitude de cerca de -0,3 (abaixo do brilho de Sirius, mas bem superior aos modestos 2,1 de 1986). O hemisfério norte contará com privilégios de camarote.
Eu estarei com 88 anos. Meus filhos serão sessentões. Não sei se aguento. Não sei se caio nessa de novo. Acho que perdi o espetáculo.



