
Casal perfeito é formado por quem é desorganizado e quem é metódico.
Juntos dão trabalho, dão sentido, dão utilidade um para o outro. São perfis complementares. Um espalha tudo, e o outro recolhe. Um tira do local, e o outro repõe. Um esquece, e o outro lembra. Um revira, e o outro alinha. Um extrapola, e o outro retém. Um é espontâneo, e o outro é comedido.
O mais desastroso que acontece em um relacionamento é unir dois maníacos por limpeza. O romance não durará muito tempo, pois envolverá competição. Vão disputar quem é o mais disciplinado, quem é o mais ordeiro, quem é o mais rápido para fazer as coisas.
Corresponde ao apogeu da tensão doméstica.
Um deles arruma a cama, e o outro delira:
— Não me espera nem escovar os dentes.
Um deles lava a louça, e o outro reclama:
— Era a minha vez. Você não deveria lavar a louça sempre.
Um deles faxina o banheiro, e o outro não aceita:
— Não me deixou nem as privadas! Vive roubando o meu lugar.
Um deles põe as roupas na máquina, estende, e o outro se sente traído:
— Não acredito que me enganou! Não me espera nem retornar do emprego.
Um leva o saco para fora antes de o outro perceber que já estava cheio.
— Você tirou o lixo?
— Estava transbordando.
— Não estava. Eu estava esperando completar.
Um passa o pano na mesa, e o outro passa de novo.
— Você não confia no meu pano?
— Confio. Mas gosto de garantir.
Um abrirá a geladeira e agrupará os potes por altura. O outro virá atrás e separará por data de validade. O primeiro voltará e dividirá por cores. O segundo reclassificará por categoria. Não comerão nada. Apenas catalogarão a comida. Brigarão até pelas migalhas.
Realizarão uma procissão com o aspirador num chão que já é um espelho.
Polirão torneiras que já projetam o rosto.
Alisarão toalhas que já estão macias.
A porta de vidro fechada resplandecerá em sua transparência, a ponto de qualquer um pensar que ela está aberta e bater a cabeça.
Atuarão como semideuses da esponja, lutando entre si, condenados a um Olimpo de desinfetante.
Entrarão em choque pelo rodo, pela vassoura, pelos baldes, porque são absolutamente iguais. Nem poderão se vangloriar das tarefas meticulosas. Não poderão contar vantagem. Mergulharão numa maratona mental, numa gincana infinita, num sistema sem falhas.
Discutirão com frequência para se policiar. Controlarão as folgas. Ficarão extenuados, buscando se antecipar aos movimentos de sua parceria. Despertarão de madrugada para ganhar o palco na hora de ajeitar o lar.
Não existirá um caos para intervir, somente o monótono brilho e o previsível esmero.
Nenhuma meia largada. Nenhuma xícara suja na mesa. Nenhum livro jogado.
A residência estará tão nos trinques, tão asséptica que parecerá desabitada. Sem erro, porém sem descanso.
Ninguém se apaixona pelo próprio reflexo na vitrine, mas pela desordem do provador.
A vida depende das imperfeições.

