
Antigamente, havia uma tradição na colação de grau universitário.
Quando você se formava, um padrinho ou familiar o presenteava com um anel, que se usava no dedo anelar da mão direita (complementar à aliança de casamento, no anelar da mão esquerda).
Você noivava com a sua carreira. Tratava-se de um compromisso sério, selado a partir de encomendas com ourives.
Num tempo de diplomação rara, exclusiva de uma elite, na segunda metade do século XX, o item funcionava como um crachá ou distintivo de autoridade. Nem era preciso perguntar qual o ofício do portador.
O anel participava involuntariamente da conversa. Aparecia no aperto de mão, na assinatura de documentos, ao folhear o jornal, no gesto inofensivo de apoiar os cotovelos em alguma superfície. Reluzia nos tribunais e hospitais como um semáforo das unhas. Piscava nos brindes e nas fotografias, num modo ostensivo de dizer sem dizer, de dar carteiraço sem nem mesmo falar.
Enquanto o diploma permanecia emoldurado na parede de casa, o aro suntuoso se destinava para a rua, para todo mundo ver – como um diploma portátil.
Seu formato era imponente, alto, um pequeno troféu. Pesava como um relógio. Nada discreto, emprestava à figura ares solenes de um bispo (uma cruz) ou de um papa (pescador).
No Brasil, nos anos 60 e 70, adotava-se um código em que cada saber mantinha sua pedra específica, uma maneira imediata de identificar a formação adquirida.
Direito – rubi (vermelho)
Medicina – esmeralda (verde)
Engenharia – safira (azul)
Administração – safira (azul)
Odontologia – granada (vermelho)
Pedagogia – ametista (roxo)
Os adereços continham uma pedra central que representava o curso, um símbolo da profissão nas laterais (balança, caduceu, engrenagem, lâmpada), o ano de formatura gravado e a possibilidade das iniciais do formando por dentro.
Sua origem remonta às instituições de ensino (Bolonha, Paris, Oxford) que, desde o período medieval, designavam cores para diferentes áreas do conhecimento, exibindo-as nas vestes acadêmicas (capas, faixas, barretes). Aos poucos, elas se estenderam aos anéis.
Receber esse bem para a formatura expressava a coroação de um momento decisivo de independência financeira, de superação de uma etapa da existência, ao lado do canudo, da toga, do ato de jogar o capelo para cima.
Meus pais tiveram o rubi enfeitando seus movimentos no âmbito jurídico. Eu sentia calafrios com o tilintar metálico quando eles batiam na mesa – jurava que a mesa poderia quebrar com aquela bigorna.
Já nós, filhos, não seguimos o ritual. Acho que, ao chegar a nossa vez, acabou a verba.
Como afirma o ditado popular: vão-se os anéis, ficam os dedos.
As joalherias perderam seus clientes, as universidades ganharam mais alunos. Melhor assim.
Tampouco conheci alguém com a peça do Jornalismo, que seria de rubi.
Eu só cultivei calos. Serve?



