
Em minha pizzaria predileta de Porto Alegre, o garçom que me atende sempre faz alguma piada sobre sua gagueira.
“Até eu terminar de falar, a pizza já vai estar pronta!”
“Melhor anotar certinho do que repetir para confirmar o pedido.”
“Que azar, vocês sempre escolhem a mesa do garçom gago.”
Eu só notei sua soletração, rara e episódica, depois de sua redundância em tocar no assunto.
Para evitar uma possível rejeição, ele se antecipa com humor a respeito de sua dificuldade. Ele ataca para se defender. Ele aponta antes de ser criticado.
Por muitos anos, fui assim. Tive língua presa. Ou me desculpava com antecedência, ou corria com a dicção para ninguém perceber a troca de letras. Na infância, era apelidado de feio, de monstro e de aberração, e vivia expondo os meus defeitos para quem nem me conhecia. Eu me apresentava como placenta, alegando que haviam esquecido o bebê na maternidade. Eu me mostrava cruel comigo, encorpando o vírus no meu sangue, na minha alma, destruindo a vaidade mínima, dizimando o amor-próprio. Jurava que se tratava de humildade, só que apenas significava falta de confiança.
No nosso último encontro, eu disse para ele:
— Risadas doem mais do que lágrimas. A gagueira não é uma doença, porém você age como se fosse. É um distúrbio neurobiológico da fluência verbal. Você acha que está rindo de si mesmo ou roubando o sorriso do outro, mas, no fundo, sofre igual. De tanto que deseja ser aceito, acaba, paradoxalmente, se recusando ou se depreciando junto. Comete um autobullying para autorizar todo mundo a não gostar de você. Muda de lado e se associa aos agressores, apoiando a zombaria. Chama atenção para um detalhe que nem seria reparado. Ofusca o conjunto da vida, o alcance da personalidade, os méritos da obra inteira.
Ele pensou que eu estava brincando. E segui com meu raciocínio:
— Não fale mal de você. Não poupe o trabalho de seus inimigos. Elogie a si mesmo. Não deixe seus desafetos preguiçosos, oferecendo a munição de graça. Você é um excelente garçom: carismático, simpático, dedicado. Com uma memória fotográfica, não erra os sabores, guarda os nomes dos clientes, lembra aqueles que estão ausentes, recorda as solicitações anteriores do cardápio. Eu faço questão de me sentar com a família na mesa de sempre, porque quero ser atendido por você.
Ele se calou. Foi a primeira vez que eu o vi sério, até um pouco triste, talvez meditativo.
De repente, ele concluiu:
— O cliente sempre tem razão!
Ele brincou comigo, não mais com ele. A gargalhada finalmente largou seus traumas.
Dirigiu-se à cozinha para encomendar a comida, mas hesitou e voltou:
— Sabe de uma coisa? Vou desfrutar do direito de ser gago.
E esperei que ele pronunciasse palavra por palavra de seu livramento, sem interrompê-lo, com o tempo abundante recém nascendo, o tempo da amizade, o tempo da aceitação.




