
O divórcio só existe para os homens, não para as mulheres.
O divórcio é uma ficção no país.
Apesar de completar cinco décadas no ano que vem, ele não é uma alternativa para a maior parte das mulheres.
Elas tentam se separar, e são assassinadas. Elas tentam se separar, e são coagidas. Elas tentam se separar, e são chantageadas. Elas tentam se separar, e são ameaçadas de perder a guarda dos filhos.
Não há igualdade de direitos, reciprocidade na Justiça, garantia da liberdade de ir e vir, possibilidade de novos parceiros.
Não é uma decisão fácil. Não se trata simplesmente de sair de casa, mas de um longo cativeiro psicológico.
Não é apenas na Igreja Católica que o casamento acontece uma só vez, e sim na sociedade civil como um todo. As estruturas mentais de poder, sob o ditame “casados para sempre”, ainda se mantêm intactas, como se estivéssemos em um período anterior a 1977.
Você não consegue virar a chave e seguir a vida, pois as brigas, as grosserias, as injúrias bloqueiam a porta antes do adeus. Ou é difamada, ou é dizimada.
Prevalece um histórico de agressão, de silenciamento, de açodamento que vai assumindo contornos físicos até transbordar na brutalidade.
Toda mulher é diminuída na separação.
Por mais que se deixem migalhas de socorro em seus caminhos, com desabafos no salão, na escola, no emprego, na academia, com vizinhos ou parentes, os avisos jamais são reunidos e parecem somente um estremecimento de casal.
O assassinato se consuma quando não resta mais nenhuma esperança de reconciliação, quando os laços são formalmente rompidos, quando os fretes de mudança estão consolidados, quando os amigos e familiares apoiam a iniciativa.
Uma parcela significativa dos feminicídios no Rio Grande do Sul ocorre logo após a concessão de medidas protetivas de urgência. Ou seja, ao ser notificado da denúncia com base na Lei Maria da Penha, o homem recorre à vingança. Não oferece tempo para a vítima se proteger ou solicitar ajuda. É uma indústria do crime instantânea, absolutamente premeditada enquanto a rede de suporte não se prepara, movida por misoginia e pelo ideal perturbador do corpo como propriedade: “se ela não será minha, não será mais de ninguém”.
Somos o estado campeão em descumprimento de medidas protetivas de urgência. Já tivemos cerca de 1,3 mil mulheres com a trajetória interrompida desde 2012. Em média, a cada quatro dias é registrado um feminicídio.
E tem quem se orgulhe do ataque a um gênero. A Polícia Federal investiga agora a publicação de conteúdos que incitam a violência contra mulheres em perfis de redes sociais.
A apuração mira a trend chamada “caso ela diga não”, que mostra homens reagindo de diferentes formas quando uma mulher nega um pedido de casamento, portando armas de fogo e facas e executando golpes de artes marciais.
É a virtualidade que imita a realidade ou é a realidade que é moldada pela virtualidade?




