
Meu amigo J.J. Camargo elaborou, aqui no nosso jornal, um elogio ao ato de escrever à mão. Que o seu tributo sirva como prescrição médica para o resgate dessa modalidade quase extinta na vida adulta.
Há emoções com as quais só teremos contato pela caligrafia, que é diferente da neutralidade de digitar.
Escrever à mão é uma produção exclusivamente para si. Sem nenhum outro destinatário. E fecha com a proposta terapêutica, alardeada no divã, de que a primeira pessoa que deve ouvir você é você mesmo.
Quando a caneta é uma extensão do braço, é difícil você mentir ou se defender do que está pensando. Ela carrega nossa humanidade de rabiscos e borrões e, simultaneamente, traz uma atmosfera de proteção, de pessoalidade, de súplica da intimidade.
Você não se comunicará apenas; sentirá cada frase, assimilando o texto com o dobro de rapidez do que no computador ou no celular.
Selecionará o que está raciocinando de forma ativa, em vez de se valer da digitação passiva. Sairá da transcrição para a fixação de conteúdo.
O cérebro é mais exigido, em uma operação que envolve o tato, a motricidade, a coordenação motora, a sensibilidade e a visão. Esses circuitos, agindo em conjunto, surtem efeitos diretos na memória recente, que é a gravação imediata de uma informação, e na memória secundária, que é a gravação mais definitiva.
De acordo com estudo publicado na revista Psychological Science, a prática facilita o acesso a gatilhos mentais (comportamentos de experiências pregressas) e, consequentemente, a retenção emocional dos dados. Ou seja, você lembra muito mais, e com mais nitidez: vêm à mente o momento em que registrou algo e a sua emoção intacta.
O exercício da escrita melhora a ansiedade, porque implica um domínio da respiração, que passa a ser ritmada e constante. Cria um fluxo calmante ao dar ordem às ideias e também ao abrir a possibilidade de observá-las sob diversos ângulos.
Materializa as preocupações e os aborrecimentos, mostrando que eles não são tão graves assim. Firma uma conexão com as suas vontades, permitindo a reflexão e a tomada de decisões sem pressa ou urgência, com maior distanciamento. Você esvaziará as distrações e prolongará o foco, pois estará off-line e não sofrerá com a angústia de responder na hora às mensagens e solicitações do WhatsApp.
Quando a caneta é uma extensão do braço, é difícil você mentir ou se defender do que está pensando
Ao reclamar oralmente, você reforçará as suas mágoas. Não largará as tristezas antigas, dedicará a sua energia para o que já aconteceu.
Escrever à mão é transformar o que foi negativo em autoconhecimento e propósito para o futuro: "Se aquilo me machucou, vou anotar para não fazer mais". O papel é uma janela para mirar adiante, bem mais do que um espelho. Você rompe um padrão, aprende com os erros. Posiciona-se no topo de uma pedra, enxergando o que ocorreu lá atrás como parte da sua evolução. Você não é mais quem era, você está sendo.
Subestimamos o grau de adoecimento de não colocar para fora, de não expor o que nos atormenta ou confunde.
Palavras represadas viram dores, palavras bloqueadas viram enxaquecas, palavras não ditas viram culpa, palavras esquecidas viram indiferença, palavras de ódio guardadas viram moléstias, palavras de amor atrasadas viram ressentimento.
Não importa se você é escritor ou não, escrever à mão cura a todos. Corresponde a tirar o peso dos ombros para uma mente menos sobrecarregada e mais ágil e leve. É se apropriar de tudo o que viveu, é assinar sua independência. Não existirá réplica ou cópia. Sua letra é maravilhosamente irrepetível.




