
Fazíamos rancho aproveitando as moedas, comida do almoço era a mesma do jantar, uniformes escolares e vestuário se restringiam apenas ao essencial, a única exceção se resumia a ler.
Naquele raro momento, parecíamos ricos, apesar de representar um monumental esforço materno.
Na Livraria Vozes, na rua Riachuelo, Dona Maria mantinha uma conta aberta no nome da família. Os filhos adolescentes usavam à vontade. Bastava anotar e levar. Meus irmãos e eu adotamos a prática de descer no centro histórico de Porto Alegre depois das aulas, para o nosso banquete espiritual. Tal rotina atravessou o longo período do ensino médio e da universidade.
A mãe alegava:
— Livro não é gasto, é investimento.
Desenvolvi a leitura acima da média graças a esse fiado um tanto perigoso.
Vistoriava as novidades nas prateleiras, desalojava os autores das estantes, capturava o sentido de alguns parágrafos de pé, chamava o vendedor José (que apelidamos de José do Egito, por causa de sua paixão pela Bíblia) e saía de lá carregado de sacolas.
Eu me percebia meio que roubando, meio que endividando o lar, meio que passando dos limites do razoável, mas o salvo-conduto afugentava a culpa.
A mãe deveria ralar no fim do mês para quitar a fatura, porém nunca nos censurou, jamais nos advertiu de qualquer excesso.
— Melhor livros do que drogas — seguia com essa filosofia.
Sou extremamente grato a ela pelo sacrifício que empreendeu de modo silencioso, a ponto de transformar uma livraria em nosso comércio favorito da vida. Mais do que loja de brinquedos, ou de roupas, ou de chocolate, ou sorveteria.
A existência é potencialmente generosa. O que vai, volta. Os ciclos se fecham perfeitamente. Quem é amparado terá chance de amparar. Quem foi socorrido um dia terá oportunidade de socorrer. É só ficar atento aos sinais e convites dos anjos. É missão da sombra virar luz, é missão da treva aprender a ceder espaço para o sol.
Hoje eu sou o traficante de obras da minha mãezinha, que se encontra com 86 anos.
Se ela me pede um lançamento, compro e envio para o seu apartamento. Não pechincho. Seu desejo é uma ordem. Em sua velhice, venho devolvendo a biblioteca que ela me concedeu em minha juventude. As pontas do destino vão sendo amarradas em um nó de proteção mútua.
Ela se espanta:
— É muito, não precisava!
Eu respondo:
— Ainda nem cheguei perto do saldo da Livraria Vozes. Seu crédito é infinito.
O contentamento se comprova pelos rituais que Dona Maria cria para perpetuar sua alegria. Acorda de madrugada com o mundo quieto de carros e latidos, desvenda lentamente os pacotes, cheira as lombadas, folheia as páginas com vagar, como num passear dos olhos, em sua varanda cheia de flores e folhagens. Eu consigo imaginar a cena detalhadamente: sorve o chimarrão e mira o horizonte a cada frase que ela sublinha, a cada galope de sua respiração com o alimento saciado de sua subjetividade.
Feliz do filho que pode ajudar sua mãe.
Feliz da mãe que pode sentir orgulho de sua criação.





