
Qual era a cor dos meus cabelos?
Loiros, muito loiros na infância. Um capacete amarelo. Eu passava sendo comparado a Cléo Hickman, jogador do Inter.
Na adolescência, já de cabelos castanhos, cheguei a ostentar uma fartura deles, com um comprimento volumoso que beirava a cintura, em raro momento de rebeldia na vida.
Mas eles não sobreviveram. Por uma questão cultural, não usei xampu nem condicionador, apenas sabão, e herdei procedimentos suspeitos de minha época de formação, oriundos de simpatias, receitas miraculosas e crendices que eram apresentadas como tratamentos alternativos em revistinhas de comportamento.
Se alguém havia dito, se havia funcionado com algum conhecido, experimentávamos. Seguíamos as fofocas.
Tanto que louvo e enalteço os que têm cachos e melenas preservados hoje, após a histeria vivida até os anos 80. Foi um show de horror de produtos químicos, um banho de destruição.
Eu me lembro da água oxigenada para clarear no sol. Ou da parafina adotada pelos surfistas do nosso litoral, reciclando, para um outro fim, o mesmo elemento que se empregava para firmar os pés em pranchas de surf.
Eu me lembro do limão espremido na cabeça para improvisar luzes na praia.
Eu me lembro da camomila fervida, transformando as pessoas em imensos sachês de chá.
Eu me lembro do henê para alisar, que resultava numa coloração escura absolutamente impossível de reverter depois.
Eu me lembro do laquê em nuvem industrial, para fixar o penteado.
Eu me lembro da brilhantina para gerar aquele aspecto molhado e disciplinado de quem recém saíra do chuveiro ou de quem jurava ser John Travolta.
Eu me lembro do Gumex, ou da Glostora, para domar o topete na frente do espelho.
Eu me lembro da gelatina ou do açúcar dissolvido, como fixador artesanal.
Eu me lembro que havia gente que colocava anticoncepcional diluído em água, e os cabelos terminavam não engravidando mais.
Eu me lembro do embebimento dos fios em cerveja para conseguir brilho, deixando a cabeleira embriagada, com cheiro de bloco de Carnaval.
Eu me lembro da babosa batida para hidratar.
Eu me lembro dos bobes nada discretos para dormir com o cabelo armado. Ou das meias-calças para imitar uma redinha.
Eu me lembro da poeira branca do Neocid para matar os piolhos, tóxico como pesticida na lavoura. Não tínhamos consciência dos riscos à saúde – sua base continha carbamato, assim como a do “chumbinho”.
Eu me lembro que, antes do Neocid, para combater o aeroporto dos sanguessugas, recorríamos a uma mistura de vinagre branco e água, ou chá de arruda, ou spray de citronela, ou óleos essenciais, como o de coco ou de árvore do chá.
Não pensávamos no futuro, a longo prazo. Queríamos atender uma moda ou uma fase, com os recursos disponíveis. A indústria de cosméticos ainda engatinhava, e nós rastejávamos nas tentativas enlouquecidas de mudar a aparência.
A verdade é que nossa geração fez de tudo para perder os cabelos. Só os fortes venceram as entradas e bloquearam a saída.



