Aparecem com frequência, em minha timeline, vídeos do atacante gremista Carlos Vinícius pregando em sua igreja.
E é bonito de ver o entusiasmo de sua adoração. De olhos fechados e dicção fremente, agradece todo dia por sua conversão.
Antes, era comum ver jogadores ajoelhados ou ostentando faixas e camisas com dizeres religiosos a todo gol anotado ou vitória conquistada. Surgia em especial uma catarse da gratidão nos triunfos.
Mas agora, com as redes sociais, venho notando uma mudança de comportamento: o compromisso começa a ser assumido também na vida de modo geral. Em qualquer instante. Em qualquer entrevista. Em qualquer flash do cotidiano.
Há um novo orgulho de Deus. Não mais como movimento – como aconteceu na década de 90 com os Atletas de Cristo, entidade cristã interdenominacional, idealizada em 1981 e fundada oficialmente em 4 de fevereiro de 1984 –, e sim como uma postura individual, como uma escolha pessoal de evangelização.
O centroavante maranhense de Bom Jesus da Selva, de 30 anos, autor de 21 gols em 28 jogos (só neste ano, são 9 gols em 14 jogos), é uma referência pela espiritualidade muito além do vestiário.
Exibe faro predador e alma de pregador. É matador em campo e salvador fora dele.
Ao mesmo tempo que se propõe a brigar, a guerrear, a lutar, a enfrentar os zagueiros com virilidade bélica, soltando impropérios, é capaz de se desmanchar em lágrimas em louvores e levantar as mãos ao céu por puro enlevo.
Ao mesmo tempo que é sério ao citar de cor algum trecho bíblico, mostra-se brincalhão e divertido, imitando a pose de Kylian Mbappé diante das arquibancadas, como se estivesse num game.
Herda historicamente a artilharia divina de Baltazar – 130 gols no Grêmio –, que levou o clube a ganhar o seu primeiro Brasileiro em 1981.
A bola é a sua ovelha, e vive pastoreando as redes. Talvez viva o seu melhor momento da carreira.
Evangélico, transformou a profissão em altar. O atleta considera que falar sobre Jesus é uma missão, e tem recebido convites para correntes em casas de colegas. Não se nega a treinar ou orar. Não se nega a declarar o que o move, o que o põe a trabalhar cada vez mais. Acredita que caráter decide campeonatos.
Esteve em grandes equipes europeias (Benfica, Tottenham, PSV, Fulham, Galatasaray), atravessou a hostilidade de competições de alta intensidade como a Premier League, concorreu com estrelas como Harry Kane, contou com orientações de técnicos espetaculares como José Mourinho, e jamais perdeu a humildade de estar a caminho, em processo, em evolução. Não se acomoda por já ter superado as expectativas de sua infância.
O que eu mais gosto em sua atitude é que dá exemplo para as próximas gerações: demonstra que não precisa ser um bad boy no futebol para ter sucesso, que a combatividade não significa truculência, que a garra não revela ódio, que a dedicação não depende do combustível da raiva ou da injustiça. E, principalmente, que não se deixa deslumbrar pela riqueza súbita ou pelos polpudos salários: tudo passa, o que fica é a experiência.
Carlos Vinícius joga por amor. Amor ao Grêmio, ao torcedor e a Deus. Com o propósito multiplicado, sua fonte de inspiração dificilmente secará.




