
Testemunhamos uma geração perdida, enredada em excesso de telas, pornografia, misoginia, maus-tratos aos animais.
Na virtualidade, você não sente o peso da lei, não assume a responsabilidade, não respeita a dor e banaliza pessoas com a mesma indiferença dada a avatares. É como se a existência fosse um game: um mero jogo, em que se pula de fase de acordo com a superação de desafios mórbidos.
Filhos da classe média alta, egressos de boas escolas, de famílias aparentemente estruturadas e abastadas, fazem boçalidades que vêm chocando o Brasil. Agem em bando, apostando na impunidade, valendo-se de seus lares influentes para escapar das grades e das medidas socioeducativas.
Em Santa Catarina, houve o envolvimento de estudantes no espancamento do cachorro Orelha. O cão comunitário foi encontrado em estado grave e não resistiu aos ferimentos.
Agora o cenário é a tradicional Copacabana, no Rio de Janeiro. A Polícia Civil apura um caso de estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos na noite de 31 de janeiro, na Zona Sul da capital fluminense.
Quatro homens, na faixa dos 18 e 19 anos, e um jovem, de 17 anos, teriam cometido o crime durante cerca de uma hora.
A adolescente acabou sendo atraída a um apartamento pelo menor, com quem mantinha um relacionamento. Eles estavam no quarto quando os outros quatro rapazes, todos maiores de idade e amigos do jovem com o qual ela havia chegado, entraram e trancaram a porta.
Tudo se mostra a princípio calculado, em covil e ardil articulados por uma gangue para capturar e imobilizar uma presa, que não contou com chances de defesa. Ela foi enganada, traída e pega de surpresa, num começo de 2026 sangrento, que não descortinou um ano novo, mas tirou todos os anos de sonho e esperança de uma menina.
Enquanto o barulho das ondas, dos turistas e dos quiosques movimentava a praia, ela se afogava em pedidos e gritos de socorro sem ser ouvida.
O episódio brutal só ganhou as manchetes um mês depois. Sempre existem a coerção para que não seja denunciado, com chantagem por vídeos e mensagens, e a culpabilização da vítima.
O corpo é violentado, e a alma é roubada e dilapidada, a partir de um bullying veemente para destruir reputações.
Ocorre ainda a investigação de mais dois possíveis estupros, que teriam sido praticados por integrantes do grupo.
São reflexos da treva de um país machista e truculento, em que uma mulher sofre um estupro a cada seis a oito minutos, em que 75% das brasileiras já foram molestadas, em que 21,4 milhões passaram por algum tipo de violência nos últimos 12 meses.
Mas o que mais chama atenção é a delinquência perpetrada pela elite, a maldade pela maldade. Parece não faltar nada na vida dos agressores, com mesada, cama quente, comida na mesa e roupa lavada.
Ou melhor, falta o básico: caráter, educação, decência, imposição de limites, castigo.
Até quando vamos mimar abusadores?






