
Uma cidade cresce quando você não frequenta os lugares de sempre, os lugares da moda, os lugares badalados, os lugares incensados, mas valoriza o comércio do seu bairro.
Alarga os seus limites quando você prestigia os restaurantes perto de casa, quando ajuda os negócios menores a prosperar, quando oferece condições àqueles que escolheram a sua esquina, a sua calçada, a sua vizinhança.
É assim que se ampliam as possibilidades de um bairro: fomentando o consumo dos pequenos empresários.
Por isso, eu mantenho a minha farmácia, o meu açougue, a minha padaria, o meu supermercado, o meu boteco, o meu buffet a quilo, a minha sapataria, a minha lavanderia, a minha feirinha, o meu martelinho de ouro, o meu posto de gasolina, a minha ferragem. Não troco por nada.
Ficam a algumas quadras do meu apartamento, num quadrilátero favorito.
Resolvo tudo a pé, sem depender de carro. Subo e desço lombas, cumprimentando os meus pensamentos.
Trato todos os espaços como se fossem meus.
Talvez seja a única possessividade que não significa egoísmo – mas pertencimento, empatia, solidariedade.
Eu protejo a subsistência das minhas redondezas.
Priorizo quem está próximo, quem conhece os meus filhos, a minha esposa, os meus pais. Como se integrasse os galhos da minha árvore genealógica.
É uma lealdade ao torrão onde fui criado e educado, onde estudei e fiz os meus amigos, onde reside a minha mãe no topo do morro. Corresponde ao meu esconderijo de estimação, ao meu refúgio sempiterno.
Sei de cor cada caminho, cada beco, cada praça. Jamais recorro à bengala do Google Maps.
Muito além de não abrir mão da saudade, ando de mãos dadas com ela. Festejo os sobrados da minha infância que resistem depois de tanto tempo, e me assusto com as novas construções.
Armazeno fofocas para o momento do café, leite e pãezinhos no fim da tarde com a família.
Sofro se um endereço comercial fecha no meu bairro, tal a morte de um parente, tal o velório de um sonho
Nem preciso me arrumar para passear pelo seu território. Eu me valho da espontaneidade da explicação:
— Vou dar um pulo ali e já volto.
Saio com roupas informais e caseiras, de chinelo, bermuda e regata. A rua é o pátio que eu não tenho, o quintal que eu não tenho. Não me exige a mesma produção dos deslocamentos a um shopping, a um cinema ou a lojas de outros centros.
Mais do que a qualidade do serviço, prepondera a intimidade do atendimento: ser chamado pelo nome, ter as urgências compreendidas, ouvir um “deixa comigo”, puxar o reboque das lembranças com uma conversa à toa.
A afeição não tem preço. Fideliza acima de qualquer desconto.
Só na minha fruteira, o dono me estende gomos de uma bergamota para provar o quanto está docinha. Ou me alcança uma fatia de melancia para mostrar que está madura. Só na minha fruteira, ainda aceito troco em balas.
Sofro se um endereço comercial fecha no meu bairro, tal a morte de um parente, tal o velório de um sonho. A placa de “vende-se” ou “aluga-se” é um anúncio fúnebre.
Eu me sinto repentinamente fracassado e melancólico. Porque a falência não é só econômica, é emocional: é um pedaço da minha rotina que some, uma parte do meu mapa que desaparece, uma fachada dos meus olhos que se descasca, uma história que não continua, uma referência que eu perco de vista.
O que eu desejava é que nunca se afastasse do nosso ninho. Que pudesse se vangloriar por ter encontrado o melhor cantinho para viver.
O melhor bairro é o nosso.



