
Não estamos conseguindo conter o terror do feminicídio no Rio Grande do Sul. É uma epidemia de violência que só cresce. Em janeiro, foram 11 crimes — o que representa um caso a cada dois dias e meio. O número supera o do mês de janeiro de 2025 (nove feminicídios).
Estamos aumentando a média histórica, que já se mostrava alarmante, de um feminicídio a cada quatro dias, no período de 14 anos, entre 2012 e 2025, de acordo com dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP).
São mulheres de diferentes idades, da adolescência à velhice, mortas por algozes domésticos que se diziam seus protetores.
Isso sem contar as subnotificações. Isso sem contar incidentes escabrosos de cárcere privado que não se consumaram em morte, pois a polícia chegou primeiro — como o episódio que aconteceu na terça-feira (27), em que uma jovem de 21 anos foi encontrada acorrentada à cama em Tupanciretã, município de 20 mil habitantes do noroeste gaúcho.
É um desprezo à figura feminina, um ódio brutal que pretende aniquilar a sua existência pública. Há uma cultura da possessividade, como se a mulher pertencesse ao marido — e para o resto da vida —, numa servidão absurda e gratuita sob o disfarce do casamento. Você não se casa, você é aprisionada. Se quiser sair, correrá o risco de ser assassinada. Não desfrutará da chance de recomeçar o seu círculo de afetos. O divórcio é um enfeite da lei.
Violência contra a mulher
A campanha de conscientização talvez não esteja surtindo efeito porque quem comete o abuso acredita que o problema não é com ele: é só com os outros, só nos demais lares. Efetua uma abstração da culpa pela mentalidade de que está fazendo o melhor pela relação ou de que está tentando salvar a relação. Não vê seu preconceito, sua hostilidade, seu ciúme, seus surtos de raiva. Naturaliza seus estados alterados por uma romantização misógina de que o macho detém o poder, a última palavra, e a ele cabe a função de provedor.
Ele não percebe a truculência caseira, como se fosse normal ter alguém à sua disposição, exigir suas vontades, impor horários e restrições.
Afora o fato de julgar o romance como uma dinâmica pessoal e íntima, em que ninguém pode opinar ou interferir, na clássica omissão: "em briga de casal, não se mete a colher".
Em 75% das tragédias deste ano, não havia qualquer registro contra o homicida. Na maioria das ocorrências, ele sequer possuía antecedentes criminais.
Trata-se de um homem comum, incomum em seus desmandos. Não vigora a noção básica de que todo homem é suspeito, todo homem é capaz de uma barbaridade quando já acumula agressões verbais e físicas, quando já desrespeita o seu par e utiliza a força para calar dissidências, quando já não permite a liberdade de escolha. Ele mata por uma ideia distorcida de resgate da sua masculinidade, como se o abandono feminino fosse uma ameaça à sua identidade.
Não experimentamos um ambiente de desconstrução patriarcal, de regeneração do biotipo autoritário com autocrítica e humildade, de reabilitação psicológica urgente por vícios de convivência — por gritar, por recorrer a palavrões e empurrões. Maus-tratos ainda são vistos como mimimi.
E não adianta argumentar com o criminoso: "E se fosse sua filha, e se fosse sua mãe, agiria assim?". Ele simplesmente não transfere a emoção. Isola os papéis de tal maneira que não pondera as consequências de seus atos. Os colecionadores de esposas não admitem que o troféu saia da estante.
A partir da Lei 14.994/2024 (Pacote Antifeminicídio), o crime de feminicídio no Brasil recebe sentenças de 20 a 40 anos de reclusão. Antes considerado uma qualificadora do homicídio (12 a 30 anos), agora é um crime autônomo, determinando uma das maiores penas do Código Penal. O regime inicial é fechado, e não há direito à saída temporária.
Mas não é o que vem ocorrendo. O apelo à razão não vinga diante da irrealidade incrustada do indivíduo.
O único jeito é ser mais eficaz na prevenção — o que, de modo curto e grosso, equivale a ser mais rigoroso com as preventivas. Não relaxar as preventivas. Mudar a atitude do tribunal. Exibir um martelo mais pesado, mais inexorável, para criar medo, para dar o exemplo.









