
Ele nos convidava a viver intensamente. Só existia o presente, e o amanhã se mostrava incerto.
Esperávamos o meio-dia de sexta-feira para que ele nos incentivasse a encerrar o expediente. Soava como o apito do fim de semana, a sirene do recreio, o berrante para a cerveja, a licença para nos despedirmos do batente e chamarmos os amigos e a família.
Seu bordão alegre nos inspirava a entender nossos limites, a pôr de lado o que deu errado, a não insistir no que não tinha funcionado:
— Sexta-feira, papai. Pode olhar aí, meio-dia. Meu filho, quem fez, fez. Quem não fez, agora pra frente esquece, porque não faz mais — gracejava.
Era o pretexto para largar a caneta, fechar o laptop, sair do e-mail.
Ele nos envolvia no poder mágico do pensamento, abrindo um portal do tempo para superar o passado e conquistar o futuro. Invocava o sossego, o ócio do convívio, as pernas para o ar.
Havia uma amnésia do bem, perdoando as omissões e as lacunas das obrigações. Tratava seus seguidores como seus bebês, numa rede que acumulava dois milhões de pessoas.
O empresário e influenciador mineiro Henrique Maderite partiu logo numa sexta-feira, 6 de fevereiro, de infarto. Esse dia ficará para sempre órfão de seu humor, de seu sarcasmo, de suas críticas ao governo, de suas trolagens com os mais próximos.
Nascido em Belo Horizonte, começou a trabalhar aos 13 anos em uma indústria mineira de laticínios. Depois, em parceria com seu irmão, ingressou no ramo da construção civil, com negócio próprio focado em habitações populares.
A fama na internet estourou por causa de uma brincadeira por WhatsApp. Henrique decidiu enviar vídeos irreverentes saudando sua turma de happy hour.
As amizades não mantiveram segredo e repassaram o material para seus demais contatos. Rapidamente, os conteúdos viralizaram.
O comunicador das redes sociais extrapolou o ambiente de restaurantes e bares para ganhar projeção como um boêmio da casa, que se orgulhava da bebida gelada e dos fardos infinitos.
— Sou pago para beber — explicava o seu sucesso e se vangloriava da sorte.
Alternava a sua atenção entre a agitação da capital e a paz interiorana. Apresentava com frequência, a partir de monólogos divertidos, a rotina com a esposa, os três filhos e o neto, a sua paixão pelo haras, e ainda opinava sobre política e empreendimentos e oferecia roteiros de viagens.
Ninguém mais brindará com a garrafa de long neck na câmera, num estalo seco que lembrava o de um coração disparado.
Tudo parece estranhamente premonitório. Será que seu inconsciente preparava o adeus? O destino acabou escolhendo o momento mais simbólico de Henrique.
Aconteceu em seu lugar predileto, junto dos cavalos que tanto amava e com os quais tanto conversava, na Ouro Preto em que buscava o refúgio do verde e a brisa das montanhas.
Só não precisava ser tão cedo, tão precoce, aos 50 anos, deixando o sábado e o domingo sem ponte, sem fundamento, soltos e perdidos, carentes de uma sexta-feira que jamais irá se repetir.






