
Admito que lustrem a minha careca, puxem os fios da minha barba, façam cócegas, desfiram um peteleco nas minhas orelhas, apliquem cascudos no cocuruto – mas, por favor, não ousem mexer no meu umbigo.
Acho que ninguém gosta que mexam nele. É o rei da rejeição.
Há cercas psicológicas, alarmes de preconceito, arames farpados do medo, muros mentais inibindo a aproximação.
Umbigo, não! Umbigo é uma reserva ecológica, uma praia proibida, um território fechado após o nascimento.
Corresponde a uma lei óbvia e unânime da privacidade, do respeito ao calabouço da barriga.
Não venha com carícias, carinhos, afagos. Qualquer um vai se proteger instantaneamente, num gesto passional e irrefletido.
(...) não coloque o dedo no umbigo do outro e será feliz para sempre.
Odeio quando a minha esposa inventa de tirar a lã da camisa que fica na região. Tenta revirar o meu casulo de seda. Ainda que ela pense que se trata de um favor, sinto cólicas de ira.
Não é para fotografar. Não é para opinar. Não é para confundi-lo com bolinha de gude.
Homens e mulheres detestam de modo igual. Não é pracinha, lugar para brincar. Não se deve analisar a forma e a textura – se é mais para dentro ou mais para fora, se sofre com uma hérnia ou não.
Sigamos a mesma regra de uma obra de arte: não se toca em pinturas e esculturas em museus. Observe e esqueça. Pois costumamos esquecer a sua existência na maior parte do dia. Entendemos a sua pele sensível e hostil como uma cicatriz de nascença, espaço pessoal e sigiloso.
Isto precisava ser dito no curso de noivos, ser alardeado como mandamento na hora de começar a namorar: não coloque o dedo no umbigo do outro e será feliz para sempre.
Não promova trilhas, escavações arqueológicas. Sequer elogie: “seu umbigo é bonito”. Uma declaração de amor a ele não servirá para nada, apenas assustará a freguesia.
Nem formigas passam por ali. Abelhas não investigam seu pólen. Besouros não chegam perto. Sua fama o antecede. É puro fel, inimigo do mel.
Conheço fetichistas de pé, de mão, até de sovaco. Nunca vi um fetichista de umbigo.
Tanto que a sua natureza complexa e polêmica já gerou vários ditos populares para traduzir egoísmo e egocentrismo: “O mundo não gira em torno do seu umbigo” ou “olhar para o próprio umbigo”.
Desde o princípio, é assumido como uma identidade inescrutável.
Para evitar mau-olhado e inveja, simpatias antigas recomendavam cobri-lo com um esparadrapo ou moeda. Persistia a preocupação de defendê-lo, de levantar fortalezas no combate às energias negativas.
Entre os meus avós, dominava a tradição de enterrar o coto umbilical do bebê em locais específicos – por exemplo, embaixo de uma roseira ou de um pé de fruta – para atrair brilho e prosperidade.
Não sei se os meus pais adotaram a medida, o plantio dos meus vestígios. Mas não duvido que o meu umbigo tenha só florescido espinhos.
Ele é o nosso ponto de hibernação. O nosso contato com a transcendência. A primeira lembrança do parto. A fechadura do Gênesis.


