
Conheci Mirangaba, cidade no sertão baiano, com 18 mil habitantes, a 350 quilômetros de Salvador.
Antes da minha palestra, circulei pelas redondezas. Foi como rever hábitos da minha meninice.
No fim de tarde, no breu de uma esquina, surgiu um vendedor de pão buzinando, levando um carrinho com seus produtos quentinhos, recém-saídos do forno. Entregava sonho, pão salgado, pão doce, pão com farofa. Não aceitava pix. Pagava-se em dinheiro, com direito a troco.
Aproveitei minhas horinhas de descuido para tentar a sorte na Mega-Sena, na lotérica. Agrada-me a ideia de ser um vencedor num município visitado, quando todos procuram o dono do bilhete entre a vizinhança.
Notei que as canetas esferográficas se mantinham atadas por cordinhas, como nos velhos tempos, e os apostadores passavam a limpo números anotados na palma da mão. A pele ainda servia de rascunho.
Os moradores colocavam as cadeiras para fora de casa no início da noite. Uma procissão coreografada, pontual, com o sol se despedindo da ribalta. Ali, a sala de estar era a rua. Assentavam-se na calçada para assistir ao movimento dos pedestres, cumprimentando um por um.
Não existia pousada ou hotel. O povoado simpático e acolhedor não fraquejava nem fazia cerimônia para oferecer um cafezinho a um estranho como eu, de passagem.
As portas rangiam, as janelas gritavam, os canos falavam, o piso de madeira cantava.
Nada de casas silenciosas, com as quais hoje estamos familiarizados.
No interior, filhos costumam casar e morar com os pais, no puxadinho do fundo. A residência vai crescendo para dentro.

Veio à tona o quanto eu me maravilhava com pouco na infância. Acreditava em tudo e me surpreendia com qualquer mágica. Era presa fácil do sobrenatural.
Os efeitos especiais se mostravam simples e, simultaneamente, impactantes para a despojada rotina: minha irmã tinha um batom verde que ficava vermelho; um tio tirava onda conosco exibindo um anel que mudava de tonalidade conforme a temperatura do corpo; as colegas usavam carimbos com bichinhos e lapiseiras de gominhos, que se desmembravam na escrita.
Eu possuía um relógio com uma coleção de pulseiras coloridas trocáveis, da marca Champion. Causava furor nas reuniões dançantes, combinando o relógio com as roupas.
Pequenos truques que consumiam a minha admiração, o meu pasmo.
Atualmente, não nos espantamos mais com coisa alguma. Perdemos o encantamento da singeleza.
Não precisávamos de muito para ser felizes: bastava jogar Stop, e o mundo parava. Uma folha, um lápis, e o passatempo nos roubava as mais sinceras gargalhadas.
Montávamos uma lista de categorias (nome, país, cor, fruta, carro, animal, objeto, profissão); ganhava aquele que respondesse primeiro.
Eu sofria com a letra D. Buscava angariar reforços.
Enquanto caminhava por Mirangaba, catava as palavras que me faltaram em tantas partidas: Davi, Dinamarca, dourado, damasco, Dodge, dromedário, despertador, detetive.
Mas não há mais com quem brincar. Talvez só com a minha memória.



