
Minha mãe desenvolveu uma linguagem própria. Não abre mão das suas particularidades.
É a única pessoa dos meus contatos que atende o telefone dizendo “pronto”.
Mostra-se sempre pronta. Não fala “alô” nem questiona “quem é?”. Resume a sua saudação a si, exibindo-se preparada para tudo.
Entre as suas idiossincrasias, não dá para deixar de mencionar a sua postura ansiosa no posto de gasolina. Enche totalmente o tanque do carro. Jamais a vi solicitar um valor específico ou um número exato de litros. Quer completar, mesmo quando não precisa, mesmo quando não há promessa de estrada. Aos 86 anos, apesar de não dirigir tanto quanto antes, mantém o padrão de comportamento. É uma beleza pegar o seu Peugeot avocado emprestado, com combustível de sobra para ir até Uruguaiana.
Assim como, precavida, não paga as contas no vencimento. No início do mês, resolve as faturas por antecipação. Quita todos os boletos num só dia – no dia primeiro. Despreza a data-limite destinada à segunda quinzena. Imagino que as operadoras a adorem. Um de seus principais medos é esquecer algum pagamento. Se entrar no Procon ou no Serasa, morrerá de vergonha, de desgosto. É certinha demais, carola demais, para experimentar a inadimplência. Crê que terminará malfalada. Guarda o rigor e as responsabilidades da menina que nasceu no interior, em Guaporé. Não vive de fiado.
Por último, em qualquer restaurante, vai pedir malzbier, aquela cerveja escura e docinha, de baixa fermentação, criada na Alemanha, que se singulariza por receber xarope de açúcar e corante caramelo após a filtração.
Na maior parte das vezes, não encontra a sua bebida favorita. Ainda que eu a leve a um lugar que sabemos que não oferece o item no cardápio, ela reivindica novamente, sem perder a esperança.
Eu já acho engraçada a sua teimosia pela malzbier. Busco dissuadi-la de cara, para não passar por frustrações:
— Mãe, aqui não tem!
Ela me responde:
— Não custa tentar.
Desde criança, testemunho a cena (é como eu com o ristretto nas cafeterias, descrevendo inutilmente como deve ser feito, porém Narciso não condena o seu reflexo).
Tomei coragem e perguntei:
— Qual a moral da insistência com essa cerveja?
Ela me explicou:
— Minha mãe gostava. Eu faço um brinde com a saudade.
Então, eu me lembrei da delicadeza de mel de minha vó e me desmontei com a homenagem.
Conversando com meu melhor amigo, Zé Klein, ele me confidenciou que sua mãe também não cansa de procurar Malzbier pelos estabelecimentos que frequentam. Descobri outra caçadora ensandecida do rótulo verde.
As mães não são iguais, mas são parecidas.
Tal como a minha, na ausência da cerveja, ela se conforma com uma tônica – que tampouco é comum, reservada a quem luta contra a extinção analógica, não se entrega às modinhas, não troca os seus hábitos por nada deste mundo.





