
No meu tempo de escola, se alguém imobilizava o braço ou a perna depois de uma queda, deixava os colegas escreverem no gesso. Ficava uma tala bem colorida, cheia de assinaturas.
Quando você se recuperava e herdava aquela marca estranha na pele descamada, destoando do resto do corpo, com os pelos mais longos e escuros, sofria para jogar fora a recordação carregada de apoio e incentivo — um troféu da inatividade. Mas não havia como preservar o amuleto da sorte: exalava um cheiro de chulé, fruto do suor acumulado.
Espécie de mural de recados, o gesso manuscrito simbolizava o conforto das amizades durante o infortúnio da dispensa da concorrida educação física (que parecia um segundo recreio, com futebol, vôlei ou caçador).
Eu também me lembro da troca de bilhetinhos enquanto a aula corria. Para passar o documento ao destinatário, era necessário esperar o exato momento em que o professor virava de costas para encher o quadro com sua caligrafia. O barulho do giz na lousa ligava o cronômetro.
Acontecia por baixo da classe. Mantínhamos o rosto erguido, fingindo que prestávamos atenção no conteúdo. A operação exigia paciência, estratégia e leitura corporal. Ainda precisávamos aguardar a resposta. O diálogo envolvia inúmeras idas e vindas, réplicas, tréplicas, ocupando toda a nossa concentração até a explosão do sinal.
Sermos pegos poderia nos levar direto para a secretaria. Vivíamos perigosamente no universo das palavras e das confissões. Experimentávamos picos de adrenalina.
Era o WhatsApp dos anos 80. Nossa escrita instantânea.
Metade dos cadernos acabava sendo consumida pela correspondência informal e clandestina. Não economizávamos na fofoca, no aprendizado da vida, na gramática da convivência.
Sem piedade com o preço do material escolar, arrancávamos folhas para elaborar uma piada, uma indiscrição, ou mesmo para nos aproximar de um amor platônico.
Uma vez, na disciplina de história, a professora interceptou meu bilhete para Rita.
Errei o alvo e ele caiu no chão.
Tremi pelas consequências. Meu medo não era que a professora lesse, mas que lesse para todo mundo, o equivalente a um print de mensagem nos dias atuais. A exposição sem consentimento certamente desembocaria na sentença do riso coletivo.
Ela não desperdiçou a oportunidade. Eu me tornei seu exemplo de censura e repreensão.
— Vamos ver o que temos aqui. O Fabrício deve saber quais foram as revoltas do Período Regencial, entre 1831 e 1840.
No bilhete para Rita, não constava nenhuma das grandes batalhas contra o Império:
— Vamos fazer o trabalho de grupo lá em casa hoje de tarde? Tem Tang e Fandangos?
Por muitos meses, fui motivo de piada na turma. Eu viralizei de um jeito arcaico, do modo possível naquela época.
Para qualquer assunto, o povo brincava:
— Vamos para a casa do Fabrício? Tem Tang e Fandangos?





