
Casais não disputavam o controle remoto da televisão nos anos 70, simplesmente porque não havia controle remoto.
Precisávamos levantar para ligá-la e desligá-la. A operação cansativa exigia girar o botão no aparelho.
Tanto que era comum dormir com a televisão ligada.
Significava um barulhão na sala.
Por incrível que pareça, a programação saía do ar, geralmente entre 0h e 3h da manhã.
O volume permanecia alto, mas sem nada. Um nada tonitruante. A claridade da tela continuava refletindo os móveis, mas sem movimento. Diferentemente de hoje, sem sequer um minuto de pausa televisiva, naquela época não existia programação 24 horas. Não existia grade de madrugada.
Ao final do conteúdo, a emissora exibia uma vinheta de encerramento, o Hino Nacional e, em seguida, surgia o famoso chiado (chuvisco) ou o zumbido da “barriga” (teste de barras coloridas).
Cultivo a paciência como herança da minha infância. Não desfrutávamos de uma cultura automatizada, do cardápio atemporal do streaming ou do acesso irrestrito ao YouTube.
Vivíamos sob o jugo e o império de cinco canais: o sinal aberto de um mundo fechado. Dependíamos de Bombril na antena para a imagem ficar perfeita.
Fui da geração que estudava em casa e completava os temas assistindo à Sessão da Tarde da Rede Globo. Passavam sempre os mesmos filmes. Lembro-me de alguns que devo ter visto no mínimo três vezes, como fundo sonoro para as minhas leituras na mesa de jantar. Espiava a manjada trama enquanto realizava consultas e pesquisas na Enciclopédia Barsa.
Os campeões da minha teimosa reincidência foram A Lagoa Azul, A Fantástica Fábrica de Chocolate e As Sete Faces do Dr. Lao. Este último, irresistível de tão estranho, narrava a chegada de um misterioso circo chinês a uma pequena cidade do oeste americano, transformando a vida dos moradores com suas bizarrices e espantosas atrações.
A família se reunia para o Supercine, depois da novela de sábado. Posso dizer que se tratava de nosso maior passatempo nas folgas. O maior entretenimento para quem não contava com recursos para passeios.
Todos no sofá – pais e irmãos – com pipoca e cobertor, para acompanhar um filme que tinha deixado o cinema poucos meses antes.
Ou você sintonizava em determinado dia e horário, ou perdia para nunca mais.
O intervalo comercial enriquecia a experiência e possibilitava a aclamada trégua para ir ao banheiro, lavar a louça ou telefonar para alguém.
O estrépito do plim-plim funcionava como convocação para retornarmos ao nosso lugar.
Nossa ansiedade não se mostrava tão patológica. Encontrávamos alegria na escassez.
Esperar fazia parte do prazer.
Esperar o fim de semana.
Esperar o fim dos comerciais.
Esperar o fim do fora do ar.
Esperar nossas pessoas prediletas para dividir as almofadas e a emoção do The End.
Atualmente tudo está à nossa disposição, e coisa nenhuma nos satisfaz. Somos insaciáveis.



