
Eu demorava a fazer os exercícios solicitados pela professora na sala de aula. Começava sempre atrasado. A minha situação se complicava durante as provas.
Pois buscava a ponta perfeita do lápis. Não largava o apontador. Apontava duas voltas e parava. Via que a ponta do lápis estava boa, mas ainda não era ideal, e continuava. Mais duas voltas, as tiras da madeira se amontoando na mesinha da classe, e pensava em avançar mais um pouquinho, um pouquinho.
No meio da última volta, quando suspirava de satisfação, o grafite quebrava. E eu tinha de reiniciar o serviço, retomando o mesmo dilema.
Não parava de descascar o lápis, como uma fruta sem caroço. Não desistia de cortar as arestas, escapelar, agudizar a pequena lança de meus deveres escolares. Não encontrava a hora de cessar: confiava que acertaria na tentativa seguinte, e me frustrava. O lápis ia diminuindo. Desaparecendo. Tornando-se um toco.
O perfeccionismo não persegue a perfeição, mas a perfeição doente. Você se exige tanto que deixa de viver. Você mira uma idealização enquanto a rotina escapa.
Em vez de lidar com o possível, fica paralisado por um capricho. Não age a favor do tempo, mas contra ele.
O preciosismo, quando maniático, estraga amizades e romances. Você deseja que o outro seja você, no seu ritmo insano. Se ele não entrega algo como você imaginou, se não fala algo como imaginou, se não executa uma tarefa como imaginou, você passa a reclamar e a insultar com veemência. Não respeita as diferenças e atropela temperamentos opostos. Não vê valor em nenhuma companhia, suspeita de todos, deslizando no autocentrismo.
Ao não interromper as críticas, vai se irritando por defeitos alheios que não são tão graves assim, que talvez sequer sejam defeitos. Coleciona cobranças ao invés de elogios.
Considera imprescindível o que nem é necessário. O que é fútil. O que não mudará a cor do dia. Por uma opressiva invenção – ou fantasia – de pretender controlar a realidade, de achar que manda nos fatos e domestica as casualidades. Jura que a pessoa é capaz de dar mais do que vem oferecendo, e reivindica aquilo que não existe.
A confusão parte da crença de uma inexequível uniformidade. Com os demais e consigo, na suposição de que as suas habilidades atendem a qualquer desafio.
Só que cada desafio requer uma expertise particular.
O que é sagrado para você não será para o próximo.
Você pode ser maduro nos negócios e não conseguir conversar com a sua mãe. Pode ser maduro no casamento e não conseguir educar os filhos.
Quem tem muito sucesso no trabalho fracassa ao repetir o padrão de competitividade no lar.
A harmonia reside no meio-termo. Na aceitação de que ninguém mora na sua cabeça. Dar o melhor de si não é dar tudo de si – há uma sutil distinção. Dar tudo de si é ultrapassar os seus limites, é flertar perigosamente com o esgotamento. Dar o melhor de si é acolher o contexto e o momento, é entender que o seu caminho é feito por capítulos, um dia por vez, e que não há pressa para resolver nada agora.
No fim, a ponta afiada não serve para escrever, apenas para ferir ou furar a folha. Mais vale uma ponta arredondada, pela metade.



