
É comum ver eletricistas, pedreiros, pintores e hidráulicos circulando com carro caindo aos pedaços. Manchado, descascado, batido. Uma carcaça guerreira.
Dá para reconhecê-los no trânsito. Rack cheio, cintos frouxos, assentos para trás.
Dirigem Unos, Opalas, Fiorinos e Kombis atulhados, lentos, livres do IPVA há tempo.
Não estão nem aí para status, aplausos ou modinhas. Não demonstram nenhuma preocupação com ostentação, nenhum anelo para impressionar, nenhuma ansiedade por aparência.
São orgulhosos de suas funções e trabalham muito para ganhar bem. A quantidade de agendamentos, às vezes ultrapassando cinco por dia, sustenta a renda.
Famosos por seus atrasos, sofrem com o preconceito de que nunca chegam pontualmente. O que não se nota é que conciliam várias demandas simultaneamente e jamais desfrutam da ciência exata das soluções.
Algo que parece simples à primeira vista de repente se agrava em falha complexa e de fundo estrutural. O planejamento de um conserto imediato talvez se transforme em uma imersão de uma semana. Não sabem o quanto demorarão na casa do vivente. São reféns do acaso.
Arcam com o pior das pessoas, absortas em urgências. Frequentemente, encontram na alma do cliente o verdadeiro ferro-velho, lidando com gente ranzinza, desconfiada, avarenta e desesperada, numa insalubridade caracterizada pela falta de educação.
Até porque atendem a imprevistos, quando os moradores não contavam com gastos adicionais e tampouco se mostram calmos e dispostos a negociar. Sua aflita freguesia pretende resolver o incômodo o mais rápido possível e se livrar das sequelas domésticas. Sequer aceita a cobrança de uma visita para inspecionar o problema.
Esses profissionais socorrem a parcela da população no epicentro de um ataque de nervos, nas horas de entupimentos, curto-circuitos, derrubada de paredes e infiltrações.
A preferência por se deslocar com uma simpática sucata corresponde a uma escolha por praticidade: baixo custo de manutenção, economia de combustível e capacidade de frete. O carro é só uma ferramenta, como a chave de fenda ou o pincel.
Não faria sentido andar em um veículo zero, último modelo. Devem levar materiais de um lado para o outro. O risco de encardir ou danificar os bancos é enorme. Carregam escadas e acessórios. Seu serviço envolve tinta, água, poeira, e termina com a roupa marcada pelo ofício. O transporte participa igualmente da jornada, do rali da sujeira, e exigiria limpeza diária para sobreviver impecável — o que é totalmente inviável.
Sempre ofereço uma das minhas vagas da garagem para que estacionem. Costumam recusar. A resposta é unânime: “ninguém vai querer roubar, pode ficar na rua”.
Não há melhor seguro contra furto do que um automóvel repleto de amassos. Reina uma tranquilidade involuntária.
Eu me sensibilizava com o desapego. Mas, assim que recebia o orçamento, passava a ter piedade de mim mesmo.
Sou também chato, não fujo à regra.

