
Saiu uma pesquisa com dados de 140 países, realizada pelo economista britânico-americano David Blanchflower, que revelou que a idade mais triste para as pessoas é entre os 47 e os 48 anos.
Independentemente de seu estado civil, sua condição financeira, o lugar em que se encontram, trata-se do nível mais baixo de seu bem-estar, num alinhamento entre sobressaltos biológicos, psicológicos e culturais.
É o período da meia-idade, do meio do caminho, do lobo uivando para a lua. As expectativas antigas não servem mais: ou foram cumpridas, ou engavetadas. As responsabilidades tomam a rotina e se acumulam como nunca (cuidado com os filhos e com os pais, casamento, emprego, boletos). O corpo muda consideravelmente de ritmo: mais remédios, mais reposição, mais consultas com especialistas. Há um quadro de aumento crônico do cortisol, de vulnerabilidade, de piora do sono e fadiga, além das variações hormonais (como a diminuição da testosterona nos homens e a transição da menopausa nas mulheres) que afetam diretamente o humor, o entusiasmo e a sensação de liberdade. E, principalmente, sofre-se um luto fundamental e significativo ao lidar com os limites e a finitude. Pois a morte, antes distante, aproxima-se do círculo de convivência.
Faz muito sentido. Até porque eu não me recordo dos meus 47 e 48 anos. Se esqueci, não reuniram momentos tão agradáveis.
Nessa fase, realmente se desenrola uma crise de imagem, em que você se reinventa para viver mais e transformar os hábitos. Não há como se mostrar inconsequente, agir impetuosamente e ser excessivo com os prazeres. O doce se reduz, a noite se encurta, a bebida se modera.
Um lado positivo do levantamento é que a queda é véspera do voo. Após esse desencanto, ocorre um pico de euforia e de otimismo com um novo eu redesenhado. Recupera-se o vigor quando se toca o fundo do poço. Experimenta-se um impulso para trocar de pele, talvez de carreira, e se embalar com motivações inéditas de viajar e conhecer o mundo.
A melancolia resulta em serenidade. Tornamo-nos menos influenciáveis à pressão social, comparando-nos menos com os demais, dispensando as muletas da inveja e da competitividade, e não sentindo aquela necessidade imperativa de lacrar. Surge uma clareza do que importa, uma noção de quem são nossos verdadeiros amigos, um desembaraço familiar decorrente dos anos de análise na terapia.
É o fim de um ciclo, não da jornada. Não mais nos desesperamos em correr contra o tempo, escolhemos nosso próprio tempo: pessoal e intransferível.
A partir dessa reflexão sobre a etapa de nossa maior infelicidade coletiva, busquei decifrar qual seria o contraponto: o instante mais feliz de nossa existência.
Não tenho dúvidas de que são os aniversários da infância, dos 10 ou 11 anos. Você chegava à quinta série, com autonomia de pensar e engajamento crescente com a turma. Era quase adolescente, quase criança, com o melhor dos dois universos. Não era mais ingênuo, mas ainda era puro. Você tinha tudo pela frente, mas já se julgava dono de um certo passado. Seus defeitos não sombreavam suas virtudes. E prevalecia uma enorme esperança de amar e de ser amado.
Veio-me à mente o poema de Fernando Pessoa, que sei de cor e ilustra esses anos dourados:
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
O contentamento superior de nossa passagem por aqui sempre será quando a casa estava cheia e todos estavam vivos.




