
Caetano Veloso arrebatou o seu terceiro Grammy — e o primeiro em dueto — com Maria Bethânia. Os anteriores foram em 2000 (pelo CD Livro) e em 2001 (como produtor).
Porém, ele não marcou presença no tapete vermelho da 68ª edição da principal premiação planetária da música, realizada em Los Angeles, no domingo (1º). Não recebeu a estatueta pessoalmente.
Não sofria com a ansiedade de candidato, não secava os outros cinco concorrentes: Siddhant Bhatia (Índia), Burna Boy (Nigéria), Youssou N’Dour (Senegal), Shakti (Índia) e Anoushka Shankar, com Alam Khan e Sarathy Korwar (Reino Unido).
Nem roía as unhas à distância, numa reza angustiada, vidrado na abertura do envelope pela apresentadora Dee Dee Bridgewater.
Sequer acompanhava a cobertura pela televisão.
Estava absolutamente alheio ao desenrolar da cerimônia, em seu apartamento no Rio de Janeiro, recolhido na cama, vendo desenhos animados com o neto Benjamin, filho de Tom Veloso.
Paula Lavigne deu a notícia de que o álbum Caetano e Bethânia Ao Vivo havia obtido o cobiçado gramofone dourado de “Melhor Álbum de Música Global”.
Sua esposa se mostrava mais espantada do que ele.
Caetano comentou com Bethânia, por chamada de vídeo, com a calma de um monge budista:
— Oi, Betha. Ganhamos o Grammy.
— Mentira — reagiu a cantora.
— É verdade. Eu soube agora, estava aqui com Benjamin, e eles vieram lá de dentro gritando — explicou o artista.
Bethânia aparentava estar ainda mais desligada do que o irmão:
— Já teve? Nem sabia que horas era…
Numa impressão inicial, os cantores podem parecer esnobes, fazendo pouco caso da distinção, ou indicando que se acostumaram tanto com o sucesso que já não se importam mais com nenhuma conquista.
Mas é o contrário. O gesto revela que não mergulharam na megalomania, não estacionaram os olhos na vaidade do espelho, da tela, da telinha, a ponto de misturar carreira e intimidade.
Apesar da agitação de shows, gravações e entrevistas, mantiveram a lucidez da privacidade. Não deixaram de seguir a rotina dos dias, a simplicidade da convivência e das distrações caseiras.
Há a alegria pública do palco e a alegria secreta do anonimato. Aquela consiste em ser amado. Esta, em poder amar.
O comportamento dominante da atualidade é caçar likes, não sair da frente do próprio conteúdo nas redes sociais, reprisar infinitamente a própria imagem, numa autocelebração, num endeusamento de si mesmo.
Caetano e Bethânia não ficaram se assistindo. Tinham que cuidar da saúde emocional e, invertendo a lógica da virtualidade, dar preferência e atenção a quem se encontrava ao lado, não a quem estava longe.
Não se transformaram em avatares. Portaram-se como integrantes da nossa família: despretensiosos, coloquiais, pegos pela algazarra alvissareira de pijama, com o coração desprevenido.
Quando não se espera nada, a surpresa só aumenta. E, com ela, a admiração e a identificação com os dois irmãos.




