
Eu me transformei com a pandemia. Nunca mais serei o mesmo depois dela.
Minha voz mudou, conquistei minha paz ao não adiar mais os planos, superei minha ansiedade e passei a considerar o silêncio como a parte mais falante de minha alma.
Permaneci longe de minha mãe por um ano e meio. Perdi seus aniversários de 81 e 82 anos, dois Dias das Mães, duas Páscoas, um Natal e um Réveillon.
Mantínhamos a comunicação por chamadas de vídeo. Encomendei almoços, enviei lançamentos literários e vinhos, porém ver uma orquídea não equivale a cheirá-la.
Tempo difícil, em que inventávamos intimidade na ausência. Eu assistia ao trailer do que será a experiência devastadora de nosso adeus: como a distância doía e como a culpa explorava a fragilidade de qualquer lembrança.
Tinha saudade de acariciar seus cabelos grisalhos e ouvir seu recado de que todo carinho é bom, mas nem por isso eu precisava estragar seu penteado.
Saudade de seu abraço de poncho, de enfiar a cabeça em seu cangote e sentir o perfume de flor e linho.
Saudade de sua teimosia, de sua postura independente de não querer morar com nenhum filho. Espantava nossos convites com humor: “sou velha, mas não inválida”.
Saudade de nossa cumplicidade, de ela se achar à vontade comigo nos restaurantes para pedir fritas (colesterol!) ou repetir a sobremesa (glicose!).
Existe tanto dela em mim que esqueço que ainda sou eu. Utilizo as costas dos papéis usados, como ela. Jamais deixo de aproveitar os dois lados da folha. Ela recordava: "árvores que não serão cortadas.
Minha mãe me ensinou a ler quando a escola já havia desistido de mim, quando o médico havia diagnosticado retardo mental, quando os colegas zombavam da minha lerdeza, quando não me restava esperança alguma de pertencer a este mundo.
Ela abriu a porta da minha cura pela janela da confiança. Eu não acreditava em mim porque só escutava ofensas a meu respeito.
Certa ocasião, na véspera das aulas, enquanto preparávamos o material do segundo ano e encapávamos os livros, na contagem dos cadernos para as disciplinas, eu comentei:
— Sobrou um!
— Não, esse não é para a escola. Comprei para você. É para sua vida, é para escrever o que você guardará para si próprio: seus sonhos, seus projetos.
Tratava-se de um caderno unicamente para pensar, para desabafar, não para atender ao professor. Jamais parei com o diário avulso. Há quatro décadas, conservo o hábito de me observar, de expor meus sentimentos, para avizinhar minhas palavras e minhas atitudes.
Eu me pus a rememorar essa angústia porque, olhando ao redor, parece que mergulhamos outra vez na indiferença.
Será que não absorvemos a lição do isolamento social, que completa seis anos agora em março? Dissipamos da mente as setecentas mil partidas precoces pelo coronavírus?
Nada hoje nos impede de ficar próximos de quem amamos. Não podemos nos julgar imortais, banalizar a nossa família e apagar do nosso DNA a tensão, o medo, o perigo invisível, ou o quanto rezávamos para retomar a rotina das visitas e da casa cheia.
Meu caderninho grita por novas páginas.





