
— Logo mais já é Carnaval!
— Logo mais já é Páscoa!
— Logo mais já é Copa do Mundo!
— Logo mais já são as eleições!
— Logo mais já é Natal!
— Logo mais já é 2027!
O ano voa para os adultos, e ninguém se percebe velho.
Eu me considero jovem. Apesar de ter um filho de 23 anos e uma filha de 32 anos.
Não houve grandes modificações no modo como encaro a minha existência. Ainda confio na total viabilidade de atravessar a arrebentação, caminhar na chuva e não me gripar. Há uma imponência de iniciativa e vontade, de viver como na adolescência. Mantenho-me mais próximo da minha mente sem fronteiras do que amigo do meu corpo restrito.
Faço selfies e não acredito que mudei tanto, observo o meu reflexo no espelho e não acredito nas alterações. Sou o meu ponto cego.
Evidente que todo mundo que convive comigo se deu conta de que envelheci, exceto eu. Pelo costume de perdoar as rugas, os vincos, as marcas da pele. Não analiso o estado do papel, só me importo com a minha letra, com o que penso. A aparência nunca fica com a última palavra.
É curioso o quanto eu me isento. Ao encontrar ex-colegas em aniversários de formatura, gritam as diferenças de fisionomia deles em relação ao período da escola. Mal os reconheço. São senhores e senhoras respeitáveis de meia-idade. Eu não me integro ao grupo, como se tivesse feito um pacto secreto com Cronos.
Cheguei a perguntar aos familiares se eles sentem o mesmo. Estranhamente, foram unânimes em ignorar a velocidade dos anos. É da condição humana não se ver envelhecendo. Possuímos um filtro interior que ajusta a nossa imagem. O Instagram apenas copiou um recurso do nosso DNA.
O autorretrato não é uma fotografia. Jamais me privo de alguma atividade, embora desabituado e fora de forma. Se vier uma bola na minha direção, juro que a dominarei no peito e a devolverei após uma linda sucessão de embaixadinhas. Pelo menos, é o filme que se desenrola na minha cabeça; não sei se os movimentos serão coordenados.
Por isso, o tempo é perigoso. Por não notarmos que ele nos transforma, passa rápido.
O tempo corre externamente, aos pulos, aos saltos, e não se mexe por dentro de nós.
Na alma, não há calendário. É como se fosse um único dia interminável.
Parece que foi ontem que eu estava com 20 anos, com 30 anos, com 40 anos, com 50 anos. Se parar para lembrar o que a minha versão mais nova imaginava virar com meio século de vida, pode ser que me projetasse acomodado, com tudo resolvido e realizado. Mas não consigo me enxergar assim; eu me identifico como alguém que erra e se corrige. Não me julgo definitivo.
Talvez, somente depois de perdermos os pais é que começamos a envelhecer. O processo de alheamento é finalmente interrompido pelo luto dos genitores. Acabam o encanto, a inconsequência, a ingenuidade.
Nossa finitude inicia a sua contagem quando os pais morrem. Você experimenta uma dimensão inédita do limite: ele realmente existe. Você assume a própria precariedade. Você vai para o outro lado do balcão. Você entende que não é invencível, invicto. O vácuo do adeus abre os olhos até então bloqueados.
Você aprimora a sua natureza, exibe a humildade de uma dor calada.
É quando o seu nascimento é profanado, o ventre e o colo fundadores extraviam a sua sequência, a sua ideia de permanência expira.
É só nesse momento que você prova da saudade mais profunda, a da ausência irreparável.




