
Minha esposa teve o celular furtado nas nossas férias. Mas o incidente não estragou a nossa viagem. É um bem material, não é a nossa vida.
Parto do princípio de que os pequenos infortúnios nos salvam dos grandes.
Não nos desesperamos. Bloqueamos a linha e seguimos o nosso roteiro. Desconforto não é tragédia. Precisamos diferenciar.
Nem a condenei pela distração ou por dar mole. Acredito que ela é a vítima — não deveria ter sido furtada —, jamais a culpada.
O que pretendo dizer é que dividimos naturalmente o meu telefone. Isto pode acontecer de forma corriqueira no casamento: compartilhar um celular. Sem medo de invasão de privacidade. Sem receios de ciúme e possessividade. Sem a paranoia de revelar alguma coisa de errada em nossa conduta.
Depende do nível de intimidade e de felicidade no relacionamento.
Vi, na prática, que a nossa convivência é baseada na confiança. Senti um imenso orgulho do que construímos. Foi uma demonstração de como alcançamos a harmonia e a paz entre nós. Nada de fora é capaz de nos separar.
Ninguém fica casado por mais de uma década se não prevalecer o cuidado mútuo.
Nunca saberei quem ama mais, pois nos amamos muito sempre. Não há motivo para reclamar do carinho que recebo ou do quanto atravessamos tardes inteiras conversando animadamente.
Ela brincou: “vou fazer um detox”.
Mas o detox eu também fiz por tabela, porque emprestei o meu aparelho. Colocávamos uma cordinha nele para evitar novas incursões dos pickpockets — esses ladrões invisíveis da Europa, que afanam os nossos objetos sem que percebamos na hora — e passávamos o cordão antes que fosse necessário pedir, para que cada um desfrutasse do seu momento digital.
Não doeu a redução das telas, não sofremos com a abstinência da exclusividade do uso. Permanecemos assim por 10 dias. Entendemos o improviso, a urgência de nos amparar, o respeito pelos contatos e amizades. Se alguém lhe respondia, eu não abria a mensagem, e vice-versa. Experimentamos um WhatsApp partilhado.
De modo nenhum escrevo com a intenção vaidosa e cabotina de elogiar o meu casamento. Estou elogiando o amor. Ele é possível quando predomina a compaixão dentro da paixão, quando ambos se protegem.
O que sustenta a união: a honestidade. Não há como manter um romance mentindo. Mentir é gastar indevidamente parte de nossa história ou da história alheia. Nunca esqueça que seu par lhe oferece o que possui de mais precioso, sem chance de ressarcimento: o tempo.
O amor se edifica pelas moedas. Singelas moedas da atenção.
O que é dos dois é ainda mais seu.
Quem entra na relação para obter vantagem acaba sozinho. Quem entra na relação para se sobressair acaba isolado na soberba.
Por isso, o casamento requer franqueza. É ser justo mesmo que não seja beneficiado, é buscar o que você deseja sem nunca desmerecer a companhia, é se retratar depois de cometer eventual grosseria.
Não existe aquele que manda e aquele que obedece, mas duas pessoas lado a lado, não admitindo que uma delas esteja sequer um passo atrás.
Você consegue suportar as desventuras porque tem o outro.
Não é a duração que determina se o casal vingou, e sim o companheirismo, essa gratidão por mais um dia junto.
Um pickpocket roubou o celular, não o nosso coração.




