
Está acontecendo o Porto Verão Alegre, que chegou à 27ª edição. É um festival teatral, que se estende a dança, shows musicais e números de stand-up, ocupando 18 espaços da capital e agitando a cena cultural de janeiro e fevereiro desde 1999.
Durante um mês, até 8 de fevereiro, oferece 145 atrações distribuídas em 243 sessões, com preços populares a partir de 25 reais.
Há a chance de resgatar décadas perdidas e admirar clássicos gaúchos como Bailei na Curva e Se Meu Ponto G Falasse, rir com as paródias do Guri de Uruguaiana, ou se aventurar em produções contemporâneas como Quem Está Aí?, que conta com o global Thiago Lacerda encarnando célebres monólogos de William Shakespeare, além de conhecer melhor a ficção de Erico Verissimo (A Hora de Erico).
Parto da tese de que quem não se identifica com o teatro é porque jamais foi. Eis a oportunidade de jogar para longe o preconceito baseado no “não vi e não gostei”.
Uma peça é uma experiência que não se repete. Você não testemunhará mais aqueles atores e atrizes performando daquele jeito, agindo daquela maneira. No dia seguinte, será uma interação inédita, ainda que o elenco siga exatamente o roteiro. É diferente do cinema, da televisão, da obra pronta.
Por mais que se diga que compareceu ao mesmo espetáculo que alguém, no fundo não é igual.
Um conjunto de acasos modifica os detalhes da encenação. Existirão lágrimas a mais e sorrisos a menos, ou lágrimas de menos e sorrisos a mais. A dinâmica depende do público, da tensão no ar, da expectativa, da ansiedade curiosa e inclusive das tosses nas cadeiras.
É um movimento incessante de empatia: a energia do palco vai para a plateia, e volta para o palco, e volta para a plateia. São ondas.
A novidade não se dá porque um ator esqueceu ou alterou a fala, mas porque expandiu a emoção. Teatro é viver o texto, não decorar o texto. Teatro é mais parecido com a vida do que a própria vida.
As palavras na ribalta são irrecuperáveis. Pode ocorrer um imprevisto ou um improviso que tornará a noite memorável, exclusiva e especial para sempre.
Os grandes erros são valiosas descobertas. Os atos falhos são certeiros. As gafes são encontros por dentro.
Teatro é voar apesar do teto, rastejar nas águas, nadar no vento, dançar parado. É quando a imaginação pede o corpo emprestado a um personagem para desafiar a realidade.
Enquanto a trupe troca de roupa nos bastidores, quem assiste troca de sentimento a cada ato. O artista se lembrará de tudo o que fez, de tudo o que falta fazer, num processo que mistura coragem e saudade. E se verá possível novamente, perceberá que é cedo para cumprir as suas promessas e desejos antigos, notará que o tempo não está fora de nós — vem da nossa atitude.
No silêncio de espectador, desenvolve-se um front de decisões, em que ele recapitula os seus dilemas.
Uma hora de história é suficiente para passar a limpo sonhos e frustrações. Sairá da sala com o canhoto do ingresso e a certeza de que algo mudou no seu interior.
Teatro é dispor de uma apresentação só para você. É cultivar amizade com o escuro e com o incógnito, sentindo os olhos atentos e arregalados como jamais teve na infância.
Não se bate o cartão-ponto da existência sem aparecer no teatro uma única vez. É tão triste quanto nunca escrever uma carta, quanto nunca tomar um banho de chuva, quanto nunca subir em uma árvore e morder uma fruta do pé, quanto nunca ter amado.



