
Família grande tem seus efeitos colaterais. Principalmente se a ninhada é de quatro rebentos para cima.
Trocar os nomes dos filhos é o mais inofensivo dos problemas. Os pais costumam confundir os desejos deles.
Pensam que é o sonho de consumo de um, e é do outro.
Já recebi aviãozinho que o Rodrigo queria, o Rodrigo recebeu carrinho de controle remoto que o Miguel queria, a Carla recebeu patins que todos queriam.
No afã de agradar, nossos tutores não memorizam o remetente e erram o destinatário. Embaralham os presentes.
Fui um garoto sem ambição, aceitava tudo o que me ofereciam, mas tinha uma só vontade inadiável, um só capricho inexplicável.
No litoral gaúcho, circulava um senhor de chapéu de palha com um pônei branco. A partir do pagamento de uma taxa, a criança poderia dar uma volta no pequeno animal, desfilar à beira-mar e ganhar um retrato de polaroide.
Sempre ansiei subir no pônei da praia, que, banhado pela luz marinha, galopava com a imponência de um ser mitológico.
Toda manhã nas férias, eu pedia para o meu pai. Não cansava de implorar. Chegava a prometer, como colorado fanático, não secar o Grêmio, time paterno.
O equino era bonito, vistoso, lembrava um unicórnio. Eu me imaginava segurando suas crinas e troteando contra as ondas.
Enquanto meninos e meninas esperavam o vendedor de picolé, eu permanecia com o olhar fixo no horizonte, procurando avistar o tio que alugava o cavalinho para passeio. A dupla surgia poderosa no meio do vento Nordestão, levantando poeira lá do fundo das dunas. A areia quente se espalhava como lençóis.
Eu sequer entrava na água para não extraviar a sua aparição. Sequer pretendia crescer para não perder o peso e a altura permitidos para a montaria.
Revezavam-se bandeiras amarelas, vermelhas, pretas na casinha de salva-vidas e na minha infância, e nada de o pai Aladdin me atender, nada de a minha solitária lâmpada mágica ser lustrada.
Certo dia, quando me distraí catando conchas e caçando os buracos de mariscos pelo chão, não é que vejo o meu irmão Miguel cavalgando no pônei com meu pai pajeando ao seu lado?
O caçula vibrava sobre a sela, o pai sorria orgulhoso por proporcionar a ele um momento de saudade, que seria para sempre recordado.
Eu não acreditava naquilo que enxergava, num misto de inveja e raiva.
Ambos, sem noção, realizavam o despropósito de me abanar, num cúmulo da ostentação. Torturavam a minha ilusão com acenos festivos, como se fossem prefeito e vice-prefeito em carro aberto, comemorando a vitória com os seus eleitores.
Jamais perdoei os dois. Toda vez que eu passava pelo porta-retratos com a imagem do Miguel sobre o pônei na mesinha da sala, fazia questão de deitá-lo. Ainda bem que era uma polaroide: a fotografia se apagou com o tempo, e o sonho roubado não tardou para desaparecer detrás do vidro.
Qualquer um guarda uma frustração infantil. Miúda, honesta, simbólica. Nem por isso menos dolorida.



