
Não sou fruto farto do mundo digital. Nasci com fotografias em negativo, caras e raras, a partir de filme no rolo de 36 exposições, revelado num prazo de sete dias.
Ou seja, devem existir, no máximo, numa perspectiva otimista, cinquenta flagrantes da minha época de criança.
Com o celular, um bebê hoje tem cinquenta retratos numa semana. A média é de mais de 2.500 fotos por smartphone.
Sou do tempo da economia das imagens, planejadas com todos do lar em domingos de passeio.
São pouquíssimos os documentos individuais.
Os álbuns da minha meninice estão sob a posse da minha mãe, no alto do armário do seu quarto, junto dos casacos de inverno.
Já tentei roubar as relíquias, mas ela percebeu a minha movimentação estranha com a escada. Como guardiã do passado, fiscaliza a preservação do patrimônio analógico.
Está ressabiada, acostumada com as visitas oportunistas dos quatro filhos.
O acervo se encontra cheio de lapsos, tal a sanha com que a prole arranca sorrateiramente aquelas preciosidades prensadas pelo plástico transparente. Nem disfarçamos o furto. Numa página de três figuras, só resta uma, sem vizinho nenhum.
Eu buscava duas fotos icônicas em especial, da minha formação, para postar nas redes sociais: o mártir e o estudante.
Uma delas era a tradicional imagem da Primeira Comunhão.
Íamos a um estúdio na avenida Protásio Alves, perto da Igreja São Sebastião. Talvez tenha sido a minha estreia com sapato — de verniz, com bico. O figurino se completava com uma calça de gabardine azul e uma camisa branca, imaculada.
Lembro que havia uma cortina de veludo vermelho no fundo do cenário e um genuflexório (banco de madeira para se ajoelhar).
Ficávamos rezando próximo a um castiçal, com as velas tremelicando, até que o fotógrafo capturasse a luz ideal.
Superava a condição de foto, emanava uma aura de santinho.
Ao fim, meninos e meninas apresentavam uma feição translúcida, entre anjo e fantasma, quase mortos.
Parecia muito mais uma inscrição de lápide. Dava medo de morrer cedo.
Também tenho curiosidade em rever o registro da primeira série, numa escrivaninha, com a bandeira do Brasil, em tamanho de pôster.
Simbolizava a pose oficial da entrada no ensino fundamental. Ninguém fugia do script. Vestíamos uniforme escolar (os mais antigos usavam avental), empunhávamos o lápis sobre o caderno, e um globo terrestre se mantinha no canto direito do enquadramento.
A turma inteira assistia ao clique, aguardando ansiosamente o seu momento de se acomodar na cadeira da solenidade.
Não contávamos com uma sessão reservada. Permanecíamos suscetíveis ao barulho da claque, aos aplausos e vaias da torcida.
Recordo que não podíamos rir. Não por se tratar de um pré-requisito ou por alguma exigência da escola em reproduzir a seriedade da 3x4, mas por respeito ao nosso rosto em transição, para não eternizar o riso banguela, não imortalizar os vazios dos dentes de leite — com tantos buracos quanto ou mais do que os álbuns de fotos na residência materna.




